Relatório Presidencial do Presidente da
SIP, Danilo Arbilla,
Búsqueda, Montevidéu, Uruguai
na 57a Assembléia Geral da SIP
15 de outubro de 2001
Washington, D.C.
Aqui estamos nós. Normalmente, como se
nada tivesse acontecido, mas sobretudo porque aconteceu muita coisa. Essa
assembléia e a presença de 400 membros da Sociedade Interamericana
de Imprensa em Washington marcam um bom momento dessa Sociedade e definem
sua invariável tradição de estar presente nos momentos
difíceis, principalmente quando é necessário lutar pela
liberdade.
Poucas horas depois dos brutais atentados terroristas de 11 de setembro, lembramos
aos nossos leitores em um editorial um dos melhores discursos de Abraham Lincoln,
comparável ao seu pronunciamento de Gettysburg, depois de sua reeleição
como presidente deste país durante a guerra civil norte-americana.
Em linhas gerais, o presidente Lincoln se perguntava, naquela ocasião,
se era possível realizar uma eleição no meio de uma guerra.
Mas a resposta não admitia dúvidas: nem mesmo a guerra é
motivo suficiente para privar o povo de seu legítimo e inalienável
direito de decidir quem, em seu nome, ocupará o governo. Se não
tivéssemos realizado as eleições, observou Lincoln, o
inimigo poderia ter dito que havia ganho a guerra. Mas a eleição
ocorreu e mostramos ao mundo que mesmo nas piores circunstâncias, mesmo
no meio de uma guerra, não há razão suficiente para limitar
o direito e as liberdades dos cidadãos.
Não é preciso dizer mais nada.
Inspirados nesse pensamento, dias depois do repugnante atentado terrorista
contra homens livres e contra toda a humanidade perpetrado aqui nos Estados
Unidos, confirmamos a realização da nossa 57a Assembléia
e afirmamos que esta era a melhor e mais firme resposta ao terrorismo. Observamos
que se a assembléia fosse suspensa, isso significaria um novo triunfo
do terrorismo; seria, como dissemos, mais um prédio sendo derrubado
após a queda das torres gêmeas. Mas a assembléia foi realizada,
está sendo realizada, e constitui sem dúvida uma imensa contribuição
à luta pela liberdade e contra o terrorismo e marcará para sempre
um dos momentos mais dignos na história da nossa organização.
E vocês são os protagonistas desse magnífico momento na
história da SIP e a sua luta pela liberdade.
Obrigado por ter vindo, por estar aqui, por não ter recuado.
Estamos aqui para dizer nãoao terrorismo e sim à liberdade.
Estamos aquipara dizer que sabemos que o inimigo ataca tudo que defendemos
e que o faz da pior maneira possível: sem mostrar seu rosto, com traição,
sem se importar com as vidas inocentes. Sabemos que o inimigo não tem
limites.
Mas sabemos também que nossa causa é justa e que a longo prazo,
a um prazo não tão longo, vencerá, e por isso não
nos intimidamos com o ataque sofrido nem com outros que possam ocorrer. Não
vamos ceder nem vamos perder a serenidade e a paciência, não
podemos fazê-lo, não vamos nos igualar a eles, aos seus métodos
e idéias.
O terrorismo é a pior forma de chantagem, a manifestação
mais suja desta prática que pretende subjugar os homens. Só
a firmeza, a calma, a tranqüilidade de nossa consciência, a fé
em nossa conduta e nossas idéias, vencem a chantagem. É preciso
ser forte e aguentar os primeiros embates, suportar os argumentos do chantagista
por mais baixos e sujos que sejam, freqüentemente são fracos e
se esgotam rapidamente. O mesmo ocorre com este tipo de chantagem que é
o terrorismo.
Mas ao mesmo tempo em que devemos ter uma conduta firme ao enfrentar a intolerância,
precisamos da mesma firmeza para defender a tolerância. A guerra não
pode fazer com que esqueçamos outras coisas. E muito menos que as percamos,
nem mesmo temporariamente.
Os terroristas, os fanáticos, os fundamentalistas e totalitários
querem acabar com a liberdade, e muitas vezes o conseguem melhor com sua própria
destruição. São suicidas mas nem sempre em vão.
Muitos de nós aqui hoje já vivemos isso na própria pele.
Muitas vezes, infelizmente vezes demais, depois dos terroristas de um tipo,
aparecem terroristas de outro tipo, depois do terrorismo guerrilheiro aparece
o terrorismo do Estado, depois dos Senderos Luminosos surgem os Montesinos.
E é para cuidarmos disso e lutar contra isso que estamos aqui hoje,
e não deixaremos que as emoções nos façam deixar
de lado nossos próprios problemas, nossas próprias faltas, e
não vamos deixar de apontá-las e denunciá-las. Como dissemos
desde o início, a luta pela liberdade é ao mesmo tempo a luta
contra o terrorismo.
O tema da guerra diz respeito a todos, mas a nós, jornalistas, muito
mais, porque afeta o nosso trabalho em todos seus aspectos e a essência
de nossa profissão. Há muito tempo se diz, e se comprovou, que
a primeira vítima da guerra é a verdade. E é para lutar
contra isso, que também estamos aqui hoje.
Durante esta assembléia examinamos os problemas de liberdade de imprensa
em nossos países, os denunciamos e faremos as reclamações
e protestos que sejam necessários. No que se refere à situação
do país sede dessa reunião, os Estados Unidos, verificamos com
alarme a existência de algumas decisões judiciais que nos preocupam
e que, a nosso ver, violam a liberdade de imprensa e conspiram contra os princípios
mais sagrados dessa nação. Houve escuta telefônica de
um jornalista. Vanessa Leggett, jornalista e escritora free lance que se negou
a revelar suas fontes em um tribunal, está há três meses
detida em uma prisão de Houston. Não podemos nos esquecer deles.
Peço-lhes que a guerra não nos faça esquecer desses assuntos.
Não são temas menos importantes e fazem parte da discussão
sobre liberdade de imprensa que tivemos nesses dias devido aos pedidos e pretensões
do governo dos Estados Unidos quanto ao trabalho dos meios e jornalistas e
quanto à conduta destes nas circunstâncias atuais.
Não deixaremos de lado essa discussão à qual nos referimos.
Penso que para contribuir positivamente para o tema não devemos aproveitar
as circunstâncias para projetar em outros nossas próprias faltas
e carências nem rasgar nossas vestes, mas, ao contrário, abandonar
de uma vez por todas os discursos duplos. Enfim, creio que, em primeiro lugar,
devemos separar o joio do trigo.
Não me agrada que o governo dos Estados Unidos, ou qualquer governo,
faça pedidos ou veladas recomendações aos meios, a seus
donos ou aos jornalistas. Mas não posso deixar de salientar a diferença
entre esses e muitos outros governos, pelo menos em nosso continente, que
em circunstâncias muito menos extremas, decididamente controlam ou proíbem
a divulgação da informação. Assim são as
coisas e não podemos negá-lo.
Quem de nós já tenha sofrido a censura sabe que a primeira coisa
que se censura é a existência da própria censura. Também
aqui a diferença é importante, pois o próprio pedido
de censura foi de conhecimento público e discutido publicamente. Nem
o governo impôs ordens nem os responsáveis pelos meios esconderam
o que lhes havia sido pedido.
A primeira coisa que está em jogo aqui é a obrigação
dos governantes de informar diariamente sobre suas atuações
aos seus cidadãos. O governo, por razões que considera válidas,
pensa que há temas que não devem ser conhecidos, pelo menos
momentaneamente, pelos cidadãos. E estes resolverão se isso
é bom ou mau no momento oportuno. Mas o bom é que os cidadãos
o saibam, ou seja, que saibam que seu governo quer manter em segredo determinados
temas por determinadas razões.
Nós, os jornalistas, temos de buscar a maior quantidade de informação
possível, inclusive as informações que possam ser consideradas
perigosas, porque nunca será mais perigosa que a existência de
uma fonte que está disposta a revelar publicamente uma informação
considerada segredo de Estado e que põe em risco a própria existência
da nação. Se a informação chegou ao jornalista,
já terá certamente chegado ao inimigo.
Mas há pessoas que consideram que este é um tema discutível,
e essa discussão é válida. Mas quero insistir que será
válida se deixarmos de lado o caráter duplo.
É preciso usar o mesmo peso e a mesma medida. Pode-se assinalar omissões,
produto de um sentimento patriótico que domina alguns colegas, e observar
também que predomina neles a militância em defesa do exercício
da profissão. Mas não podemos nos esquecer de que muitos que
criticam isso ignoram outros temas importantes e outras formas de conduta.
Um exemplo é a pouca difusão que teve o envolvimento do ex-presidente
francês, Mitterrand, nos crimes cometidos na Argélia, ou a cobertura
permanente dada à questão dos desaparecidos em alguns países
do Cone Sul, e a forma como são ignoradas as centenas de desaparecimentos
no México, local de refúgio de alguns intelectuais e de cujos
presidentes e da corrupção pouco se fala, ao passo em que se
castigam sem cessar ex-governantes de países vizinhos. Não podemos
tampouco esquecer as expressões usadas por determinados meios de países
europeus e países desenvolvidos quando falam de seus terroristas, os
quais qualificam como bandos de delinqüentes, chegando quase a fazer
a apologia dos terroristas da América Latina e de quem os suportam,
e que inclusive chegam a ter entre seus colaboradores os maiores testas de
ferro deste terrorismo.
O jornalismo norte-americano encontra-se, sem dúvida, em um dilema,
e o está discutindo. O maior problema é que a credibilidade
está em jogo e esta dependerá da forma como agirem. As pressões
e as urgências e até os sentimentos e as dores de hoje podem
ser os inimigos da credibilidade de amanhã.
Acreditamos que a única política correta é divulgar todos
os fatos e tentar se aproximar da verdade, que é ao mesmo tempo a melhor
propaganda para os meios, para os cidadãos, e para a democracia e a
liberdade.
Vimos que esta é uma posição muito forte entre os jornalistas
e os meios norte-americanos e acreditamos que eles saibam bem qual é
o caminho.
Nem todos, entretanto, pensam assim. E destes temos ouvido e visto algumas
coisas que nos preocupam muito, que colocam em pauta a questão da credibilidade
de alguns meios e dos responsáveis por eles e que também apresentam
um perigoso discurso censurável e duplo.
Depois do pedido do governo, algumas pessoas aceitaram determinados critérios
restritivos, alegando que não estão dispostas a servir de veículo
para as mensagens dos terroristas. Como se sabe, também, os meios norte-americanos
não mostraram imagens pesadas nem sangrentas da tragédia. É
possível que tenham considerado que essa era uma boa medida para não
gerar mais raiva, mais dor ou pânico ou simplesmente para não
ferir a sensibilidade do povo. É uma posição legítima
e pode ser aceitável por muitos. O inaceitável é que
esses mesmos meios não tenham editado as imagens com mortos e feridos
no acidente aéreo ocorrido há alguns dias em Milão. Desse
ponto de vista, também não é legítimo que manipulem
constantemente imagens muito fortes sobre as desgraças e tragédias
dos países em via de desenvolvimento ou decididamente pobres, dos que
têm fome. Por outro lado, me pergunto o que fariam esses mesmos diretores
ou jornalistas se os governos de países nos quais existem guerrilhas
lhes pedissem que não difundissem o que dizem porque pode se tratar
de mensagens codificadas para seus partidários ou se lhes dissessem
que usassem as informações não para defendê-los,
mas simplesmente para não fazer propaganda deles.
Creio que esse também é um tema sobre o qual precisaremos refletir.
Em termos pessoais, insisto que a única política válida
é dizer a verdade sempre, em todos os casos. É a única
e efetiva forma de lutar contra o terrorismo sem sacrificar a liberdade.
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