Apresentação de Rafael Molina Morillo
Presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação
da Sociedade Interamericana de Imprensa
Domingo 14 de outubro de 2001
57a Assembléia Geral, Washington, D.C.
O saldo negativo que apresentamos em nosso relatório
de março em Fortaleza sobre a situação da liberdade de
imprensa no continente não sofreu nenhuma alteração nos
últimos seis meses.
Houve, certamente, alguns progressos, mas devemos observar que continuam ocorendo
as situações conhecidas e indesejáveis e que surgiram
também elementos abomináveis que violam o sagrado direito dos
povos de divulgar e receber informações em uma nação
que foi tradicionalmente um modelo pelo respeito sempre professado aos direitos
humanos.
Referimo-nos aos Estados Unidos da América, onde encontra-se detida,
desde 20 de julho passado, a escritora free lance Vanessa Leggett, acusada
de desacato. Leggett, exercendo seus direitos constitucionais, recusa-se a
revelar suas fontes de informação sobre um assassinato de grande
repercussão e sobre o qual escreveu um livro. É também
muito preocupante o caso de John Solomon, da The Associated Press, no qual
o Departamento de Justiça ordenou que uma companhia telefônica
entregasse o registro das chamadas telefônicas do jornalista.
Preocupa-nos, também, o que vem ocorrendo nos Estados Unidos como conseqüência
dos atentados terroristas de 11 de setembro e da resposta bélica que
provocaram. Muitos analistas acreditam que as medidas de segurança
adotadas pelas autoridades norte-americanas podem ameaçar os direitos
humanos universalmente reconhecidos, tais como o de livre acesso às
fontes oficiais de informação, para proteger as operações
militares. Teme-se que surja uma tendência à autocensura, resultante
da confusão do sentimento patriótico com a obrigação
jornalística. O correspondente da BBC, Javier Lizarzaburu disse, talvez
acertadamente, que "a cobertura da imprensa poderá ser uma vítima
da primeira guerra do século 21".
No resto do continente, a luta de nossa Sociedade por uma imprensa totalmente
livre, responsável e independente, continua árdua.
O assassinato de jornalistas é, sem dúvida, a forma mais brutal
de embate de idéias. Vemos nossos colegas ser abatidos, semana após
outra, mês após mês, em diversos locais, vítimas
da intolerância, e o pior é que na maioria dos casos esses crimes
continuam sem punição por falta de interesse das autoridades
em solucioná-los. Doze jornalistas foram assassinados nos seis meses
a que se refere este relatório. Essas mortes de jornalistas que foram
abatidos durante o exercício de sua profissão elevam para 243
o número de vítimas nos últimos 13 anos.
Os inimigos da liberdade estão infiltrados em todas as partes e se
manifestam por meio da violência, mas também por outros meios,
às vezes sutis e às vezes grotescos. Atuam envolvendo-se nas
ações oficiais dos governos e políticos, ações
terroristas, espúrios interesses econômicos, leis restritivas
ou interpretações suspeitas que fazem alguns juízes,
seja por venalidade ou por falta de independência do Poder Judiciário
em seus respectivos países. Se somamos a isso a tendência à
autocensura que observamos em muitos meios de comunicação latino-americanos,
as dificuldades de acesso às fontes públicas de informação
e a utilização da publicidade oficial para premiar ou castigar
os jornais que são simpáticos ou avessos ao governo de plantão,
devemos admitir que enfrentamos hoje um dos maiores desafios da história
da Sociedade Intermaricana de Imprensa.
Os maiores problemas com o Poder Judiciário ocorrem na Argentina, Bolívia,
Brasil, Colômbia, Guatemala, Haiti, México, Paraguai, Uruguai,
Venezuela e Jamaica. No Canadá, o Poder Judiciário avalia a
possibilidade de impedir a cobertura jornalística dos julgamentos,
o que constitui um atentado aos direitos do público de ser informado.
Na Venezuela, a Corte Suprema aprovou recentemente a resolução
sobre o direito de resposta que tem um efeito negativo sobre a liberdade de
expressão. No Equador, a imprensa sente-se ameaçada por um imenso
número de ações e sentenças adversas, muitas das
quais apoiadas em uma legislação que, em vez de ajudar, impede
o pleno exercício da liberdade de imprensa.
Vemos, contudo, uma luz no fim do túnel. A Corte Interamericana de
Direitos Humanos emitiu em 7 de setembro passado uma resolução
que ordena suspender, até que sejam executados determinados procedimentos,
os efeitos negativos de uma sentença dos tribunais de Costa Rica que
constituíam violações flagrantes à liberdade de
imprensa, em prejuízo do jornal La Nación e seu jornalista Mauricio
Herrera. Essa decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos é
muito importante, não apenas porque se trata da primeira medida provisória
nesse nível relativa à liberdade de expressão, mas também
porque pode servir de estímulo e respaldo aos jornalistas de Costa
Rica para que abandonem a postura de autocensura que pudemos perceber em algumas
salas de redação durante nossa recente visita ao país.
A chamada "indústria das indenizações" no Brasil
não é o único problema do jornalismo nesse país.
À crescente onda de processos judiciais a que se vêem submetidos
os meios somam-se as agressões, assassinatos e tentativas de censura
incluindo um caso de confisco dos exemplares de uma edição de
um jornal de São Lourenço do Sul que denunciou a ocorrência
de corrupção administrativa. Um relatório detalhado da
situação brasileira que será apresentado mais tarde nos
fornecerá mais informações sobre esses casos, mas devemos
destacar como o aspecto mais preocupante desse período o assassinato
de Mário Coelho de Almeida Filho, morto com oito tiros um dia antes
de prestar depoimento sobre denúncias jornalísticas sobre o
envolvimento de funcionários públicos em manobras fraudulentas.
O crime organizado e especialmente o narcotráfico são as novas
ameaças ao exercício do jornalismo livre no México, onde
não observamos muito interesse em solucionar os crimes contra jornalistas.
Um exemplo disso é o caso do jornalista norte-americano Philip True,
cujos assassinos confessos foram libertados devido a "desaparecimento
de provas" enquanto aguardavam sua sentença. Não se tem
notícias dos resultados da promessa que o presidente Vicente Fox fez
à delegação da SIP que o visitou em fevereiro passado
de submeter ao Congresso de seu país um projeto de lei que garantisse
o livre acesso dos cidadãos e dos jornalistas a todas as fontes de
notícias oficiais.
Em Honduras e na Nicarágua implantou-se por lei a obrigatoriedade de
filiação a um Colégio de Jornalistas, que constitui uma
das formas mais comumente utilizadas de restringir o direito de todos os cidadãos
de divulgar informações e de recebê-las. Na Nicarágua,
felizmente, a lei em questão não pôde ser aplicada e ainda
não foram examinados dois recursos de inconstitucionalidade referentes
à mesma. Outra espada de Dâmocles que pesa sobre a imprensa independente
da Nicarágua é a distribuição tendenciosa da propaganda
oficial. Um aspecto positivo foi a assinatura da Declaração
de Chapultepec pelos principais candidatos à presidência em sinal
de adesão a seus princípios. O documento foi assinado na residência
da ex-presidente Violeta Chamorro e na presença de uma delegação
da SIP que visitava o país.
No Equador, foi recentemente encerrado o programa de televisão "Le
informo, Señor Presidente" devido à divulgação
de fatos comprometedores para o governo.
A situação do Paraguai configura três restrições
à liberdade de expressão. Tem-se a inusitada quantidade de processos
e sentenças condenatórias contra a imprensa, que desvia sua
atenção e seus recursos, enfraquecendo sua verdadeira missão
na sociedade, que é informar e orientar a opinião pública.
Em segundo lugar, tem-se o que se poderia chamar de "ofensiva legislativa",
a chamada lei de "transparência administrativa" - que contém
sérias normas para impedir a investigação jornalística
e cuja anulação já foi solicitada pela SIP ao Congresso
- e a entrada em vigor de outra lei, a Lei 1682, que regulamenta a informação
de caráter privado e viola princípios constitucionais fundamentais
em prejuízo da liberdade de imprensa. Por último, temos as agressões
físicas e ameaças de que são freqüentemente alvo
os jornalistas.
Não houve nenhum avanço no caso do jornal El Liberal, de Santiago
del Estero, Argentina. O jornal continua sendo perseguido pelo governador
da província e de nada têm valido os pedidos feitos ao governo
em relação ao caso, incluindo os pedidos da SIP feitos pessoalmente
pelas delegações enviadas ao país expressamente para
esse fim. Um conflito semelhante ocorre entre o jornal Río Negro, da
província de mesmo nome, e o governador Jorge Sobisch. A SIP denunciou
várias vezes a situação de exposição dos
jornais independentes das províncias, sobretudo em países de
grande extensão territorial nos quais os governos centrais não
parecem capazes de controlar os excessos dos governadores.
O jornalismo independente de Cuba continua sendo alvo de agressões,
conforme vem ocorrendo nos últimos quarenta anos. Foram registrados
novos casos de agressões e interrogatórios de jornalistas por
parte de agentes de segurança que fazem pressões para que os
jornalistas deixem de exercer sua função, como aconteceu com
o correspondente da agência independente Havana Press, que foi impedido
de realizar seu trabalho. Recentemente, cinco jornalistas com vistos norte-americanos
foram impedidos de sair do país, sem que lhes tenham sido dadas maiores
explicações a respeito. Continua em vigor a Lei 88 (ou "Lei
Mordaça"), que prevê penas de até 20 anos de prisão
para quem divulgar informações sem permissão do governo.
A Bolívia é um caso especial. A crise econômica e os conflitos
sociais que desde abril passado assolam o país e envolvem camponeses,
produtores de coca e outras organizações sindicais e cívicas
provocaram conflitos armados nos quais ficaram feridas ou mortas várias
pessoas, inclusive jornalistas. É difícil determinar se a morte
de um jornalista por ocasião desses conflitos está ligada ao
exercício de sua profissão, mas é lamentável que
o governo não tenha se dedicado conforme desejado para apurar responsabilidades.
Na Guatemala, a SIP obteve uma promessa do presidente Alfonso Portillo de
pôr um fim ao conflito entre os meios escritos e televisados do país.
O presidente prometeu submeter a licitação pública duas
freqüências disponíveis para canais de televisão
de sinal aberto para que os setores que se queixam do quase monopólio
por parte das estações simpatizantes do governo possam ter seus
próprios meios eletrônicos de comunicação. A promessa
do presidente Portilllo deverá ser cumprida até o final do ano.
No Haiti, não se observam maiores novidades quanto ao difícil
exercício do jornalismo. São freqüentes as perseguições
por parte de funcionários civis e militares contra jornalistas e continuam
sem punição os assassinatos de jornalistas registrados anteriormente.
A Colômbia é outro caso no qual se tem um governo que respeita
os direitos humanos, mas que é incapaz de aplicar sanções
justas e oportunas aos inimigos da liberdade, os quais, com freqüência
alarmante, agridem e matam jornalistas. Na República Dominicana, são
abundantes as agressões verbais a alguns jornalistas por parte de funcionários
públicos, incluindo o presidente da República, e há registro
de muitos casos de agressões físicas de origem indeterminada.
Deve-se observar, porém, que esses incidentes não impediram
que a imprensa e os meios de comunicação em geral realizassem
seu trabalho com liberdade e independência.
Apresentamos um panorama geral da situação da liberdade de imprensa
nas Américas, sem entrar em detalhes, pois esses serão discutidos
quando examinarmos a situação específica de cada país.
O resumo apresentado serve, entretanto, para que tenhamos uma idéia
da dimensão do desafio que enfrentam os amantes da liberdade.
A Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação, trabalhando
de perto com a Comissão de Chapultepec e a Comissão de Impunidade,
está alerta para detectar as ameaças e violações
à liberdade de imprensa assim que surgirem e faz, na medida do possível,
os maiores esforços para que resplandeça o direito e desapareçam
as trevas. Nesse sentido, temos enviado missões conjuntas com a Comissão
de Chapultepec para o Brasil, México, Costa Rica (duas vezes), Nicarágua,
Guatemala e Honduras, e estivemos também em Quebec, Canadá,
durante a Cúpula. Fomos igualmente ao Peru para comemorar com nossos
colegas o retorno à legalidade depois do longo período sombrio
de Fujimori e Montesinos, e a Washington D.C. para os trabalhos realizados
junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos na busca
de soluções relacionadas aos nossos princípios, especialmente
no caso da jornalista guatemalteca Irma Flaquer.
No período que cobre este relatório enviamos 89 cartas de protesto
e 58 comunicados de imprensa, dando continuidade, assim, à nossa busca
de respeito pela imprensa e pelos jornalistas do continente.
Devemos observar que em vários países que visitamos fomos recebidos
sem problemas pelas Cortes Supremas, às quais expusemos a possibilidade
de realizar, no futuro, um encontro entre juízes e jornalistas, em
nível continental, como forma de conhecimento recíproco das
funções que desempenhamos na sociedade.
Nossa luta não terminará, entretanto, enquanto houver um só
jornalista impedido de dizer sua verdade ou um só cidadão do
continente que não possa receber informações livremente.
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