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Raul Rivero
Discurso
Queridos amigos,
A felicidade é
um sentimento passageiro, etéreo, limitado, que deixa quase sempre confuso
e endividado aquele que a experimenta. Eu, que sinto uma alegria sutil por estar
aqui esta noite e encontrá-los pessoalmente, chego, vago e cheio de compromissos,
para empenhar o destino e a realidade de 23 jornalistas cubanos que estão
acampados nos calabouços por defenderem o direito de informar no seu
país com decência e profissionalismo.
Esta é a primeira vez que posso participar de uma assembléia da
nossa instituição e abraçar, saudar, e agradecer ao vivo
tantos anos de solidariedade, tanto amparo e generosidade, tanto apoio moral
para nós que em Cuba tentamos reinstaurar a luminosidade, o resplendor
que é sempre, para uma sociedade, o jornalismo sem restrições.
Essa é também a primeira vez que meu relatório tem o sabor
amargo da distância.
Os artigos que enviamos de Cuba no final do século passado com os relatos
do dia a dia dos escritores, as ameaças, prisões, e a lista de
sofrimentos dos pequenos grupos que foram preenchendo a geografia cubana, eram
banais e imperfeitos, cheios de honra e de esperança. Usávamos
o telefone, o gravador, e, no final, os relatos eram como que pequenos documentários
sobre a realidade do jornalismo alternativo.
Tinham sempre um tom íntimo, testemunhal, e se ampliavam e se enriqueciam
pelo trabalho de profissionais que no exterior os imprimiam, e ainda os imprimem,
tais como os jornalistas Humberto Castelló e Wilfredo Cancio, para que
todos os membros tivessem uma visão geral do cenário em que trabalhávamos.
Refiro-me a um período de quase sete anos. Nessa época, um movimento
que se iniciou com uma dezena de correspondentes, transformou-se em uma corrente
vigorosa de mais de uma centena de homens e mulheres empenhados em fornecer
informações e opinar, seis ou sete pequenos bolhetins e revistas,
e uma presença permanente nas páginas da Web, emissoras de rádio
no exterior e meios de imprensa na América Latina, Estados Unidos e Europa.
Estou usando os verbos no passado porque vou falar do futuro. A onda de repressão
iniciada em 2003 pela obstinada ditadura castrista mudou subitamente esse quadro.
Prendeu 30 jornalistas e mandou-os para a prisão para cumprir mais anos
de pena que o próprio regime será capaz de sobreviver.
Lembro-me agora de que em um dos julgamentos, depois de o tribunal pedir uma
pena de 20 anos para um jornalista, um funcionário da segurança
aproximou-se dele e lhe disse em voz baixa: “Mude seu depoimento, porque
você não vai agüentar 20 anos”. “Nem você”,
respondeu o homem, e pôs-se a olhar para o teto.
Vocês podem ter certeza, queridos amigos, de que foi com esse ânimo
que os jornalistas cubanos enfrentaram o circo armado por alguns gângsters
para que seus palhaços e patetas aplicassem a lei mordaça.
Outros, que ficaram temporariamente livres, decidiram emigrar, e um grupo maior
continuou trabalhando em um clima violento, tenso, repleto de ameaças
e com as grades da prisão sempre prestes a cercá-los.
E lá estão, nas ruas e nos campos de Cuba. É de lá
que chegam suas crônicas, suas notas informativas e seus artigos no início
de uma nova etapa de trabalho, em que uma das áreas importantes a cobrir
é a vida na prisão dos que antes se ocupavam de outras coberturas.
O nosso trabalho agora é ajudar, apoiar, amparar e dar força todos
os dias aos jornalistas que estão ativos e manter nos meios, nos fóruns
internacionais, nos gabinetes dos políticos, a presença dos presos,
porque essa é a forma de demonstrar nossa fidelidade aos que perderam
a liberdade por a terem defendido.
Na minha cela empoeirada e enferrujada, o que mantinha viva e próxima
a esperança de liberdade eram as notícias sobre os amigos de todo
o mundo que escreviam um artigo ou uma pequena nota, uma simples menção
à minha condenação.
O grande desastre do preso não é a quantidade de anos que lhe
resta cumprir, a catástrofe é o esquecimento. Temos obrigação
moral de derrotar esse esquecimento.
Peço a lembrança e a presença permanente para os jornalistas
cubanos que estão presos.
Quero agradecer a Sociedade Interamericana de Imprensa, e especialmente aos
amigos Ricardo Trotti, Danilo Arbilla e Alberto Ibargüen, por seus esforços
e sua constante solidariedade comigo e com a minha família durante o
tempo em que estive na prisão. Gostaria de reiterar a esta Assembléia
minha disposição pessoal em continuar trabalhando modestamente
pela nossa instituição porque estou convencido de que a força
da SIP nos ajudará a reconquistar a liberdade de expressão em
Cuba e que com ela virá a democracia.
Muito obrigado.
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