ARGENTINA
Ocorreram várias agressões a meios de comunicação
e jornalistas, que configuram diferentes formas de violação
da liberdade de imprensa e de expressão.
Em uma sentença que gerou uma justificada preocupação,
a Corte Suprema de Justiça confirmou, no final de setembro, a condenação
da Editorial Perfil S.A., obrigando-a pagar indenização por
supostos danos morais causados ao ex-presidente Carlos Menem, por divulgar
aspectos de sua vida privada.
O supremo tribunal do país decidiu-se a favor de Menem ao considerar
que certos artigos jornalísticos publicados pela revista Noticias invadiram
sua privacidade e o prejudicaram. A Editorial Perfil deverá pagar indenização
de 60.000 pesos.
Em dois artigos publicados em 1994 e 1995, a revista Noticias informou sobre
a relação do então presidente com a deputada do partido
justicialista Marta Meza, na época do desterro de Menem na província
de Formosa durante o governo militar, relação que havia produzido
um filho. Menem ingressou com ação que não avançou
em primeira instância. Mas em março de 1998, a Sala H da Câmara
Civil revogou a sentença e condenou a editora, em uma decisão
ratificada depois pela Corte.
Deve-se levar em conta que os fatos descritos pela Noticias já eram
públicos e amplamente conhecidos pelos cidadãos e que não
havia dúvida de sua veracidade, conforme admitiu o mesmo tribunal.
Por outro lado, Menem sempre foi pessoa disposta a manter uma ampla exposição
pública, inclusive em aspectos muito íntimos.
A imprensa argentina advertiu que "o funcionário que abre as portas
de sua vida privada não pode se aborrecer porque os meios de imprensa
ultrapassam o umbral de sua intimidade, informando aos cidadãos com
veracidade sobre certos matizes de sua ética pessoal que, necessariamente,
afetam seu conceito da ética pública no exercício do
mandato popular".
Infelizmente, a situação do jornal El Liberal, de Santiago del
Estero, com o governador dessa província, Carlos Juárez, continua
a mesma.
Em junho, Abid Hussain, relator especial da Comissão de Direitos Humanos
(CDH) da ONU, viajou em missão oficial a este país para avaliar
a situação da liberdade de expressão.
Durante uma entrevista com o alto funcionário da ONU em Buenos Aires,
um grupo de editores disse que "não há problema que nos
preocupe mais do que o do jornal El Liberal". Hussain viajou a Santiago
del Estero para ter contato pessoal com as partes envolvidas. Seu relatório
será apresentado à ONU em março de 2002.
Entre outras irregularidades nesse caso, a justiça de Santiago del
Estero não apresentou os documentos requeridos pela Corte Suprema de
Justiça do país e a maioria das causas são ouvidas por
juízes que foram recusados pela defesa do El Liberal por não
se ter a devida garantia de independência.
O maior obstáculo enfrentado pelo jornal são os múltiplos
confiscos resultantes de ações judiciais, supostamente incitadas
pelo poder político. Trata-se de 440 mulheres (de um total de 4.000
mulheres do ramo feminino do Partido Justicialista, no governo, que também
ameaçam mover processos) que se apresentaram como demandantes contra
o jornal ao sentirem-se supostamente afetadas por uma publicação
em que se reproduziu uma informação do jornal de Córdoba
La Voz del Interior. As queixas totalizariam 19 milhões de dólares.
Antes do início das ações, o governo da província
suspendeu todo tipo de publicidade oficial no El Liberal e interrompeu os
pagamentos pela dívida da publicidade encomendada anteriormente. Essa
situação persiste desde julho de 2000.
O Comitê Federal de Radiodifusão (COMFER) aplicou punições
administrativas a duas emissoras. No caso do Cronica TV, por ter transmitido
um ato do partido neonazista Nuevo Triunfo, e no caso do Canal 7, pelas expressões
usadas no programa "Marcapazos" que, segundo a entidade, teriam
afetado a figura do presidente.
Continua em vigor na Argentina a Lei 22.285 de Radiodifusão, que regula
o conteúdo, objetivos e características das informações
difundidas pela rádio e televisão e na qual se fundamentaram
as penas. Essa lei, promulgada durante a última ditadura militar, possui
normas restritivas e obsoletas. Além disso, é necessário
advertir que contradiz claramente os tratados internacionais incorporados
à Constituição em 1994.
Na província de Río Negro, Patagônia, ocorreram ataques
do governador Jorge Sobisch ao jornal Río Negro.
Em 3 de agosto, em declarações à Radio Departamento Minas,
de Andacollo, Sobisch atacou o jornal Río Negro com duras críticas
à sua agência Neuquén e a seu diretor, o jornalista Héctor
Mauriño, por ter informado que o governo havia mandado retirar os soldados
da estrada na qual se realizava um protesto de manifestantes para evitar problemas
a dois dias das eleições internas do Movimento Popular Neuquino
(MPN).
O governador referiu-se também a outro artigo publicado anteriormente,
no qual se informava sobre uma suposta perda de afiliações ao
MPN, que, paradoxalmente, chegou a admitir como correto.
Em outro incidente, ocorrido em meados do ano uma tentativa de incêndio
no depósito de papel do jornal Río Negro, dois desconhecidos
entraram no prédio com galões de gasolina. O incidente ainda
não foi esclarecido.
Na madrugada de 13 de abril, registraram-se várias ameaças contra
vendedores de jornais para impedi-los de abrir seus postos de vendas na zona
norte da região urbana de Buenos Aires.
As intimidações foram contra sua segurança pessoal, mas
não surtiram efeito, pois os jornais foram editados normalmente e distribuídos
nos horários normais.
Essa situação foi denunciada perante o ministro do Interior,
Ramón Mestre, e perante o ministro do Governo da província de
Buenos Aires, Raúl Othacehe, que foi solicitado a criar mecanismos
para evitar semelhantes atentados à liberdade de comércio e
à liberdade de imprensa.
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