COLOMBIA
A violência
continua sendo o maior problema para a liberdade de imprensa no país.
Cinco jornalistas foram assassinados, dois em situações relacionadas
ao exercício do jornalismo; três cujos casos ainda estão
sendo investigados. Nove foram seqüestrados, entre eles cinco correspondentes
estrangeiros. Três tiveram de abandonar o país com medo de represálias
e 64 denunciaram ao Comitê de Proteção de Jornalistas
do Ministério do Interior que haviam sido ameaçados.
A violência não se limitou aos jornalistas, mas estendeu-se aos
meios de comunicação, especialmente em Cúcuta e Valledupar,
onde foram registrados quatro atentados com bombas.
A liberdade de expressão e de imprensa foi diretamente afetada por
vários desdobramentos jurídicos e judiciais.
Ao contrário da tendência do hemisfério para descriminalização
da injúria e da calúnia, o Congresso da Colômbia está
prestes a iniciar o estudo de um projeto de lei do congressista e jornalista
Juan Gómez Martínez que pretende estender as penas de prisão
para esse tipo de crime a outros, tais como “acusações
sem fundamento”.
O governo examina um projeto para endurecer a luta antiterrorista que, teme-se,
poderia afetar a liberdade de imprensa, apesar de o presidente Álvaro
Uribe ter garantido que não haveria restrições e ter
desautorizado um projeto de lei que chegou ao conhecimento da imprensa.
Esse projeto de lei pretende que quem “mediante imprensa escrita, rádio,
televisão ou sistemas de informação virtual divulgar
informações que possam prejudicar o desenvolvimento eficaz das
operações militares ou da polícia, colocar em perigo
a vida do pessoal da força pública ou de particulares ou executar
qualquer outro ato que atente contra a ordem pública, a moral pública,
melhorando a imagem do inimigo ou estimulando as atividades terroristas para
causar um impacto maior de suas ações, incorrerá em prisão
de oito (8) a doze (12) anos, sem prejuízo da suspensão do serviço
correspondente”.
Como aspecto positivo, em 27 de dezembro, o presidente Álvaro Uribe
censurou a Lei do Jornalista que havia sido aprovada no Congresso por considerar
que viola leis trabalhistas e limita a liberdade de expressão. A lei
distingue entre os jornalistas profissionais e os não-profissionais
e reconhece como jornalistas aqueles cadastrados perante o Ministério
do Trabalho para exercer a profissão de forma remunerada. O autor do
projeto de lei apresentou-o mais uma vez recentemente.
Depois de assinar a Declaração de Chapultepec, o presidente
Uribe comprometeu-se também, em 22 de janeiro, perante uma delegação
internacional da SIP, a não editar nenhuma norma que afete a liberdade
de imprensa.
Nessa visita, o ministro do Interior, Fernando Londoño, disse à
SIP que os jornalistas deviam ter muito cuidado nas zonas de conflito militar
para evitar situações de risco. Nesse mesmo dia, registrou-se
o seqüestro de vários correspondentes estrangeiros. O ELN seqüestrou
Ruth Morris e Scott Dalton, jornalistas do Los Angeles Times. Foram soltos
11 dias depois por pressão dos órgãos nacionais e internacionais.
Os paramilitares libertaram os repórteres norte-americanos Robert Young
Pelton, Marta Wedeven e Megan Smaker, que haviam sido seqüestrados nas
selvas do Chocó, fronteiras com o Panamá quando realizavam um
trabalho para o Discovery Channel.
Quanto à cobertura nas áreas de conflito, em 25 de novembro,
a Corte Constitucional declarou inconstitucionais as medidas que restringiam
a entrada de jornalistas e de organizações não-governamentais
nas zonas especiais de reabilitação.
No domingo, 1º de dezembro, foi assassinado o jornalista Gimbler Perdomo
Zamora, diretor de notícias e proprietário da emissora Panorama
Stereo ? única emissora local? no município de Gigante, departamento
de Huila. Dois homens e uma mulher interceptaram o jornalista e sua esposa.
Perdomo recebeu seis disparos e sua mulher ficou ferida.
O jornalista era reconhecido no local por suas campanhas de solidariedade
e pelas denúncias contra maus governos. Segundo colegas do jornal de
Huila, fez várias denúncias contra a administração
municipal em julho de 2001, enquanto cobria uma greve, e teve sua moto queimada,
em uma ação atribuída a membros do governo.
José Eli Escalante, correspondente da emissora Voz del Cinaruco em
La Esmeralda (Arauca), foi assassinado em 28 de outubro passado a poucos metros
de sua casa, quando um pistoleiro atirou contra ele duas vezes. Segundo a
diretora do noticiário Voz del Cinaruco, Escalante fazia um jornalismo
do tipo comunitário, mas para ela “o assassinato de Escalante
não tem relação com seu trabalho como jornalista”.
Escalante era conhecido em La Esmeralda como líder comunitário
em uma zona de muito conflito armado. Nas eleições de 2000 foi
eleito vereador de Arauquita, mas foi ameaçado pelas FARC para que
deixasse o cargo.
Em 9 de março, foi assassinado o jornalista Oscar Salazar, gerente
e proprietário da emissora Radio Sevilla, em Sevilla, Valle do Cauca.
Salazar, famoso político do local, também fazia um programa
informativo e de opinião aos sábados. No resto da semana trabalhava
em um escritório de advocacia em Cali. Em uma de suas últimas
reportagens havia questionado políticos locais que “não
trabalhavam para o povo”.
Em 22 de março, foi assassinado o jornalista Agustín de Jesús
Rodríguez, diretor da emissora comunitária Fantasía Stereo,
no município de Palestina, Departamento de Caldas.
Quanto aos crimes contra comunicadores, o juiz sétimo especializado
de Bogotá, que havia recusado o processo do assassinato do jornalista
e humorista Jaime Garzón, em 13 de agosto de 1999, teve de aceitar
a decisão do Supremo Tribunal de Justiça no sentido de que o
crime teve finalidade terrorista e que está ligado ao exercício
da profissão, mas não ordenou reabertura do processo.
Outros fatos que afetaram a liberdade de imprensa:
- Um grupo
de jornalistas do jornal El Colombiano foi detido pelas Autodefesas Unidas
Colômbia (AUC) perto de Medellín. Os paramilitares os advertiram
de que deviam pedir permissão para entrar na zona e os libertaram 24
horas depois.
- Os jornalistas
de rádio e televisão, Javier Orlando Mantilla e Edison Figueroa
Benítez, foram agredidos por policiais no aeroporto de Bucaramanga.
O cinegrafista foi agredido e o jornalista forçado a assinar uma notificação
na qual se comprometia a dizer no dia seguinte na emissora que tudo havia
sido um mal-entendido.
- O jornalista Iván Darío Cardozo Arias teve de sair do país
após constantes ameaças de morte. Cardozo havia divulgado uma
lista de advogados e funcionários judiciais supostamente comprometidos
no roubo de uma agência do governo.
- Humberto
Briñez, correspondente da RCN Televisión no Valle del Cauca
também foi obrigado a sair do país. Briñez foi inicialmente
ameaçado pela guerrilha das FARC, mas começou a receber ameaça
da polícia, depois que mostrou, em um documentário, a incapacidade
da instituição diante do seqüestro de vários congressistas
de Cali no ano passado pelas FARC.
- Em dezembro,
as FARC impediram a entrada do correspondente do jornal Llano Siete Días
no município de Puerto Lleras, na região de Llanos Orientales,
para fazer uma reportagem sobre a situação da ordem pública
no local.
- Em 9
de dezembro, a jornalista María Méndez ficou ferida, assim como
um vereador e dois congressistas de Florencia, em Caquetá, quando foram
atacados por pistoleiros quando saíam da Casa de Cultura da cidade.
- Em 9 de dezembro, em Cúcuta, norte de Santander, uma bomba de 15
quilos de amonal explodiu os equipamentos de transmissão da Caracol
Radio e da Radio Reloj. O atentado deixou fora do ar a Radio Reloj. As FARC
assumiram o atentado argumentando que “os meios de comunicação
faziam o jogo do governo de Uribe e dos militares”.
- Um mês
antes outra bomba havia explodido em frente às instalações
da RCN Radio em Cúcuta, deixando quatro pessoas mortas. E seis dias
depois, a polícia desativou um explosivo que havia sido colocado na
sede do jornal La Opinión de Cúcuta. Nessa ocasião, a
guerrilha do ELN assumiu a responsabilidade pelos atentados.
- O cinegrafista
da RCN Televisión, Carlos Chamorro, e o locutor Iván Darío
Solano, da emissora La Súper Estación de Villavicencio ficaram
feridos em 15 de dezembro depois da explosão de uma granada lançada
por desconhecidos contra a praça de touros de El Castillo, Meta.
- Em 16
de dezembro, uma granada explodiu na sede da RCN Radio em Valledupar, departamento
de César. A explosão causou danos menores ao prédio.
As autoridades atribuíram o atentado às FARC.
- Em 17
de janeiro, membros de uma guarnição militar na capital de Arauca
detiveram o jornalista do El Tiempo, Jorge Meléndez e Danilo Sarmiento,
fotógrafo que fazia um trabalho para esse jornal. Confiscaram a câmara
digital de Sarmento e destruíram as fotos que ele havia feito.
Os fatos
ocorreram durante a chegada a Arauca de 60 membros das Forças Especiais
dos Estados Unidos que cumpriam tarefas de treinamento contra a guerrilha.
Sarmiento foi obrigado a entrar em um carro e foi levado a um escritório
do B2 (inteligência do Exército). O fotógrafo teve de
dar explicações a dois militares norte-americanos e a uma agente
da Procuradoria que lhe disseram que estava proibido de tirar fotos dos militares
dos Estados Unidos.
- Dois jornalistas do jornal Vanguardia Liberal foram presos na Penitenciária
Nacional de Valledupar quando faziam uma reportagem sobre 32 presos que faziam
greve de fome. Suas fotos digitais foram estragadas por ordem do major encarregado
da prisão.
- O repórter gráfico do El Tiempo, John Wilson Vizcaíno,
denunciou ter sido agredido por membros da Polícia Metropolitana de
Bogotá quando cobria as manifestações na central de abastecimentos
Corabastos, em 29 de janeiro. O repórter foi detido por policiais que
confiscaram sua máquina fotográfica.
- Em 30 de janeiro, o presidente Álvaro Uribe pronunciou-se perante
o corpo diplomático sobre os jornalistas e disse: “Incomoda saber
que um jornalista possa chegar ao esconderijo de um terrorista e que o governo
não possa chegar lá. Incomoda saber que um jornalista informa
sobre um ato terrorista que será cometido contra o governo e que o
governo seja surpreendido”. No dia seguinte, em uma base militar, disse:
“Os jornalistas terão de ajudar o povo colombiano, controlando-se,
evitando ser irresponsáveis, compreendendo que em primeiro lugar está
o direito do povo colombiano de recuperar sua segurança e não
o desejo de ter um furo jornalístico”.
As insinuações de que a imprensa pudesse estar fazendo o jogo
do terrorismo foram rejeitadas em um editorial do El Tiempo.
Alguns dias depois, durante uma entrevista com o jornalista Jorge Gestoso,
da cadeia CNN en español, o presidente Uribe expressou mal-estar por
algumas perguntas do jornalista e negou-se a continuar a entrevista para o
público em inglês.
- O chefe de Estado Maior, general Jorge Lesmes, tentou exigir que os jornalistas
que cobrem o Ministério de Defesa apresentem um pedido de admissão
com 24 horas de antecedência. Diante dos protestos, a medida foi substituída
por um sistema de passes para a imprensa.
- O jornalista
Ramón Eduardo Martínez, do canal RCN, teve de sair de Cúcuta
no início de fevereiro após saber que corria risco de vida.
O comunicador foi seqüestrado durante 48 horas, junto com sua equipe
jornalística, em 26 de janeiro passado, pelas FARC em Arauca. O grupo
foi ameaçado pela guerrilha, que lhes avisou que se não parassem
de trabalhar para o referido canal enfrentariam as conseqüências.
- O repórter
gráfico Herminio Ruíz, do semanário El Espectador, foi
agredido por policiais quando cobria o atentado terrorista ao clube El Nogal,
ao norte de Bogotá, que deixou 33 pessoas mortas e 157 feridas.
- Em 10 de fevereiro, foi seqüestrado Eduardo Mastrascuza Cano, locutor
da emissora comunitária do departamento de Bolívar. Não
se sabe quem foram os seqüestradores nem o motivo do seqüestro
- Em 4 de março, promotores decidiram não dar prosseguimento
a uma ação contra o diretor da revista Cambio, Mauricio Vargas,
ingressada pelo ex-assessor presidencial do presidente Uribe, Pedro Juan Moreno,
porque não haviam sido feitas acusações falsas na matéria
alvo do processo.
- Na quarta-feira,
5 de março, a presidente do Círculo de Repórteres Gráficos
da Colômbia, Gladys Barajas, que havia denunciado ter recebido ameaças
de morte, saiu do país. O Círculo havia divulgado diferentes
agressões a jornalistas pela polícia, como as aqui mencionadas.
- Em 12
de março, foi resgatado Pedro Cárdenas, diretor de notícias
da RCN Radio no município de Honda, departamento de Tolima. O jornalista
havia sido retirado de sua casa no mesmo dia por homens armados, supostamente
paramilitares das AUC. Cárdenas havia saído dois anos antes
da região por causa de ameaças de paramilitares que havia denunciado
por assassinatos seletivos. Durante a transmissão no rádio do
seqüestro frustrado, o jornalista mencionou esse fato.
- Em 14
de março, fontes da Procuradoria revelaram que a jornalista Soraya
Yanine, filha de um general reformado do Exército, ia ser utilizada
por terroristas da FARC para que colocasse explosivos no carro para o Canal
RCN onde funciona o Ministério de Defesa, onde trabalha cobrindo a
frente militar. Segundo as autoridades, os bandidos iriam pressioná-la
seqüestrando um de seus filhos. A jornalista e sua família estão
sob proteção das autoridades.
- Em 16
de março, o noticiário de televisão "Hora Cero"
saiu do ar por causa de dificuldades econômicas. A recessão publicitária
ditou o fim de outros noticiários de televisão nos últimos
3 anos.
- Em 18
de março foi assassinado em Arauca o correspondente auxiliar do El
Tiempo e jornalista da Emissora Meridiano 70, Luis Eduardo Alfonso. Dois pistoleiros
numa moto, depois de uma discussão, atiraram três vezes contra
sua cabeça na entrada da emissora onde chegava para fazer o programa
das cinco da manhã. O assassinato do jornalista ocorreu em um período
em que ele estaria supostamente protegido pelo Comitê de Proteção
a Jornalistas do Ministério do Interior devido a ameaças de
que era vítima. O diretor da mesma emissora, Efraín Varela,
havia sido assassinado em 28 de junho de 2002.
- Guerrilheiros
das FARC dinamitaram uma torre de transmissão no sul do país
e deixaram sem sinal de televisão o departamento de Putumayo.
- Em 19
de março, depois de ir ao enterro de Luis Eduardo Alonso, o correspondente
do Canal Caracol en Arauca, Rodrigo Ávila Osorio, foi ameaçado
de morte. “Se você não abandonar a região, será
o próximo morto”, dizia a mensagem anônima. Ávila,
assim como Alonso, faz parte do Programa de Proteção a Jornalistas
do Ministério do Interior. Resta esperar que não tenha o mesmo
destino que seu colega.
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