COSTA RICA
Foram poucos os casos de restrição à liberdade de imprensa
no país no último semestre, mas isso se deve a uma mudança
substancial na legislação e na jurisprudência, não
à ausência de processos judiciais.
Destaca-se a nova jurisprudência determinada pela Câmara Constitucional
no caso do jornal Al Día, que representa uma intromissão do
Poder Judiciário nas decisões editoriais de um jornal.
Em 2 de abril, a Câmara Constitucional obrigou o presidente do Banco
Central, Eduardo Lizano, a divulgar um estudo sobre a Costa Rica que o Fundo
Monetário Internacional (FMI) realizou em julho de 2001. Lizano havia
se recusado a entregar o documento à imprensa alegando que existe uma
"tradição" de não publicar a maior parte dos
relatórios anuais. Comentou também que o Banco Central não
publica atas das reuniões de sua diretoria nem os relatórios
que as missões do BID ou do Banco Mundial entregam ao governo, declarando,
além disso, que os dados do relatório do FMI "não
são úteis para a política do governo nesse momento".
Em 14 de fevereiro de 2002, o deputado eleito pelo partido Liberación
Nacional, José Miguel Corrales, divulgou um resumo do estudo, mas o
Banco Central manteve sua atitude e recusou-se a entregar o relatório
completo. Em 25 de janeiro, o secretário-geral do Sindicato de Funcionários
do Ministério da Fazenda, Carlos Navarro Gutiérrez, submeteu
o recurso de amparo que levou à determinação para a divulgação
do documento.
Em 30 de julho, a Câmara Constitucional determinou e apoiou o recurso
de amparo apresentado por um colunista do jornal Al Día contra o diretor
desse meio. O jornal trocou de diretor e o novo responsável decidiu
reorganizar sua lista de colaboradores, eliminando a coluna semanal de Rodrigo
París. O colunista enviou um último artigo em que questionava
se sua demissão poderia estar ligada a uma discussão que havia
tido com o novo diretor meses antes, sobre opiniões expressas sobre
um candidato presidencial. Esse texto não foi publicado e o autor recorreu
à Câmara Constitucional, que determinou que o jornal publicasse
a coluna e pagasse pelos custos do processo e por danos e prejuízos.
Esse caso é motivo de preocupações, pois o direito de
resposta não é sequer a questão, mas sim que a Câmara
Constitucional interveio para modificar uma típica decisão editorial
e, além disso, penalizou o jornal por adotar esta decisão.
Em 11 de setembro, o presidente da República, Abel Pacheco de la Espriella,
pediu à polícia judicial para acelerar a investigação
sobre o jornalista Parmenio Medina Pérez, diretor do programa de rádio
"La Patada". O presidente anunciou que, se o caso não fosse
esclarecido antes do final do ano, solicitará a colaboração
do FBI (Escritório Federal de Investigações) norte-americano.
Em 12 de setembro, o procurador-geral da República, Carlos Arias, pronunciou-se
em defesa da autonomia judicial e garantiu que a polícia está
quase identificando os culpados. Em 20 de setembro, a polícia prendeu
o suspeito de um roubo de banco e afirmou que o detido também é
"de especial interesse" para o caso Medina. Medina foi assassinado
em 7 de julho de 2001, vítima de três tiros, quando voltava para
casa. O jornalista tinha recebido ameaças relacionadas com seu trabalho
e sua casa já tinha sido alvo de tiros.
Em 17 de setembro, o Tribunal Penal da Segunda Vara de San José absolveu
Rogelio Benavides Rivas, editor da revista Teleguía, do La Nación,
do delito de injúrias. Benavides tinha sido condenado a 20 dias de
prisão, sentença que poderia ser trocada para uma multa equivalente
a 20 dias do salário mínimo mensal, além de lhe ser determinado
publicar a sentença na revista Teleguía e pagar as custas do
processo. A condenação ocorreu por causa de uma crítica
de um concurso de beleza publicada na Teleguía.
Um recurso de anulação conseguiu revogar a sentença,
mas ordenou-se a realização de um novo julgamento. Benavides
foi absolvido no novo processo pois, na ocasião, o prazo para prescrição
já havia expirado.
A comissão especial sobre liberdade de expressão da Assembléia
Legislativa, que estuda oito projetos de reforma das leis que afetam a liberdade
de expressão e de imprensa, nomeou uma subcomissão encarregada
de analisar as mudanças necessárias para por fim ao ambiente
jurídico restritivo em que o jornalismo é praticado na Costa
Rica.
Em 30 de outubro de 2001, a comissão elaborou uma lista com os temas
que poderiam gerar consenso e sobre os quais as discussões se concentrariam,
porém o progresso tem sido lento.
A lista inclui uma reforma do artigo 152 do Código Penal, que modificaria
o delito de publicação difamatória para incorporar o
princípio de reprodução fiel. A lista incorpora também
o debate sobre a cláusula de consciência dos jornalistas e o
direito de resposta no caso de artigos de opinião.
O projeto de lei do novo Código Penal inclui vários regulamentos
preocupantes para a liberdade de imprensa, especialmente na área de
acesso à informação. A seção intitulada
"Contra o âmbito da privacidade e a autodeterminação
informativa" regulamenta a utilização da imagem de terceiros,
o acesso a bancos de dados computadorizados e o uso de dados pessoais e comunicações.
Com a meta louvável de garantir a privacidade, os textos incorporam
definições de crimes cuja amplitude poderia entrar em conflito
com o pleno exercício da liberdade de imprensa. O Supremo Tribunal
de Justiça, promotor do projeto de lei, já demonstrou interesse
em discutir o projeto com a imprensa.
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