PARAGUAI
A liberdade de imprensa sofreu duros golpes
por parte dos poderes públicos, autoridades e políticos que
pretendem ter a possibilidade de controle sobre o que publicam os meios e
de impor travas legais quando os assuntos a serem publicados não convêm
aos seus interesses.
O mais grave nesse período consistiu na entrada em vigor, em julho
passado, de duas leis claramente restritivas para a atividade jornalística.
Uma delas, denominada "de transparência administrativa" (Lei
No. 1.728), com severas disposições para impedir a livre investigação
jornalística, foi batizada pela sociedade paraguaia como "Lei
Mordaça".
Perante a grande pressão nacional e internacional, o Congresso e o
Poder Executivo anularam tal lei em 24 de setembro de 2001. Entretanto, o
mesmo deputado que projetou a lei, Rafael Filizzola, apresentou um projeto
substitutivo sob a denominação de lei "de livre acesso
à informação pública", em estudo no Congresso,
que contém igualmente disposições restritivas para a
imprensa.
No mesmo dia 16 de julho, data em que o presidente Luis González Macchi
promulgou a Lei No. 1.728 "de transparência administrativa",
coincidentemente entrava em vigência outra lei igualmente danosa para
a liberdade de imprensa, a No. 1.682, "que regulamenta a informação
de caráter privado". Esta lei foi promulgada em 16 de janeiro
passado, mas tinha seis meses para sua entrada em vigor, que coincidiu com
a data de promulgação da "Lei Mordaça".
Entre outras coisas, a Lei 1.628 proíbe dar a conhecer dados "sensíveis"das
pessoas e igualmente restringe a publicação dos dados referentes
à sua situação patrimonial, o que na opinião de
analistas e de editoriais da imprensa é propício para aqueles
funcionários que enriqueceram ilicitamente durante o exercício
de seus cargos.
Em 5 de setembro, a Comissão de Legislação da Câmara
dos Deputados propôs uma modificação a esta lei, sugerindo
o seguinte acréscimo no artigo primeiro: "não se aplicará
essa lei, em nenhum caso, aos bancos de dados nem às fontes de informações
jornalísticas nem às liberdades de emitir opinião e de
informar".
Os legisladores consideram que este acréscimo evitará as restrições
à imprensa, mas como advertiu o prestigiado jurista paraguaio Alejandro
Encina Marín, "a melhor lei para regular o direito à informação
é a lei que não existe".
Por outro lado, a justiça continuou sendo o instrumento utilizado para
tentar amedrontar a imprensa crítica ao Governo, e assim abundaram
os políticos, governantes e particulares que ingressaram ações
contra diretores de meios e jornalistas e que, em alguns casos, conseguiram
sanções para esses.
Por exemplo, o juiz Hugo López aplicou uma multa equivalente a 120.000
dólares ao diretor do ABC Color em uma ação por difamação,
calúnia e injúria, que foi ingressada pelo senador do Partido
Colorado, da situação, Juan Carlos Galaverna.
O colunista Ricardo Canese, que publica seus artigos no ABC Color, foi condenado
pela Corte Suprema de Justiça a dois meses de cárcere e uma
multa equivalente a 650 dólares em uma ação por difamação
e injúria promovida por opiniões emitidas em 1992, no clima
de uma campanha eleitoral, sobre a origem da fortuna do então candidato
a presidente (depois eleito para tal cargo), Juan Carlos Wasmosy, e quando
o próprio Canese era também um dos candidatos presidenciais.
Em abril, marcou-se o décimo ano do assassinato do jornalista Santiago
Leguizamón, então diretor da emissora de rádio Mburucuyá
de Pedro Juan Caballero - 550 km ao noroeste de Assunção - e
correspondente do jornal Noticias nessa cidade, crime que até agora
permanece na impunidade. Leguizamón foi abatido a balas como conseqüência
das denúncias que realizava sobre a máfia que atuava nessa cidade
de fronteira com o Brasil.
Registraram-se, além disso, neste período algumas agressões
e ameaças contra jornalistas no comprimento de sua profissão.
A seguir, exemplos de violações à liberdade de imprensa:
Em 21 de março, Antonio Mieres promoveu uma ação por
supostas calúnia, difamação e injúria contra o
diretor do jornal ABC Color, Aldo Zuccolillo, por uma publicação
em que foi mencionado como o responsável por um duvidoso crédito
de 500 milhões de dólares garantido por bônus do Tesouro
Nacional. Na publicação assinalava-se, além disso, que
Mieres tinha sido preso cinco vezes por fraude. O processo continua nos tribunais.
Em 30 de abril, o juiz eleitoral Jorge Rolón Luna rejeitou um amparo
constitucional apresentado por Reinaldo Domínguez Dibb contra o jornal
Noticias.
Domínguez Dibb, que se apresentou como pré-candidato à
prefeitura de Assunção, pediu ao juiz que proibisse o mencionado
meio de con tinuar publicando uma fotografia que ele considerava como expondo-o
ao escárnio público.
Em 30 de abril, o juiz Hugo López aplicou uma multa de 470.880.000
guaranis (cerca de 120.000 dólares, no câmbio da época)
ao diretor do jornal ABC Color, em uma ação por difamação,
calúnia e injúria que foi ingressada pelo senador do Partido
Colorado, da situação, Juan Carlos Galaverna.
Segundo o magistrado, com as publicações, o diretor do ABC Color
"denegriu a honra de Galaverna". Um dos termos que este questionou
é de "ladrão de galinhas", mote dado ao legislador
pelo falecido vice-presidente da República Luis María Argaña,
que o jornal reproduziu em suas edições.
O ABC Color também se referiu em suas publicações à
estadia gratuita de Galaverna no Hotel Guaraní, de propriedade de uma
entidade provisional estatal. A sentença recebeu um recurso e o caso
permanece nos tribunais.
Em 30 de maio, o juiz Hugo López decidiu liberar o diretor do ABC Color,
em outros dois julgamentos promovidos por publicações realizadas
no jornal.
Um deles foi ingressado pelo juiz do crime Jorge Bogarín, por suposta
frustração da execução penal em grau tentativo.
O magistrado mostrou-se insatisfeito por publicações do ABC
Color que demonstravam a pouca credibilidade de testemunhas que se apresentaram
no caso do assassinato do vice-presidente Luis Argaña, ocorrido em
23 de março de 1999.
O juiz López suspendeu o diretor do ABC Color ao comprovar que a publicação
questionada por seu colega Bogarín foi feita um mês antes de
que este decretasse a confidencialidade do processo.
O outro julgamento por suposta instigação ao falso testemunho,
foi ingressado por Gumersindo Aguilar, uma testemunha falsa que se apresentou
no mencionado assassinato e que fora desmascarado pela investigação
dos jornalistas do jornal.
O magistrado comprovou a inexistência dos fatos denunciados por Aguilar.
Em 10 de maio, o juiz Jorge Bogarín proibiu os jornalistas de assistirem
um julgamento oral e público, sobre um caso de assédio sexual
da qual foi vítima uma menor.
Em 14 de maio, o jornalista da emissora de rádio Cáritas, Sever
del Puerto, denunciou perante uma promotoria do crime o então ministro
do Interior, Walter Bower, como cérebro de um bando que realizou o
denominado "megaassalto", com o roubo de mais de 11,2 milhões
de dólares que estavam sendo embarcados no aeroporto internacional
de Assunção, de um carro-forte para um avião, com destino
a bancos dos Estados Unidos. Além disso, acusou o mesmo bando de ser
responsável por outros grandes assaltos realizados em Assunção
e outros lugares do interior.
O jornalista denunciou posteriormente ameaças e pressões e,
por ordem judicial, recebeu proteção policial para si próprio
e sua família, e também foi objeto da solidariedade de organizações
de imprensa do país e do exterior.
Em 31 de maio, o ex-deputado nacional do Partido Colorado, Oscar Isidro González,
ingressou uma ação pelos supostos delitos de difamação
e injúria contra o diretor do ABC Color, Aldo Zuccolillo, pela publicação
de uma fotografia em que aparece a mencionada pessoa com um punhado de cédulas
de identidade durante eleições internas do citado partido. A
retenção das cédulas dos eleitores costuma ser uma ação
para a compra de votos, um ato ilegal. Esta ação continua nos
tribunais.
Em 5 de junho, desconhecidos que estavam em uma caminhonete com vidros escurecidos
dispararam contra o edifício da empresa Multimedia, que edita o jornal
Popular. Os disparos não causaram vítimas, desconhecendo-se
os motivos do ataque.
Em 16 de julho, a jornalista de rádio Mina Feliciángeli, da
Radio Uno, recebu uma nota anônima de ameaça, em que falavam
que "nem mandrake vai salvá-la".
A nota anônima acusa Feliciángeli de colaborar com os que assumiram
o poder após o assassinato do vice-presidente Luis María Argaña
em março de 1999 e causaram a morte de sete jovens manifestantes.
Uma investigação permitiu detectar os nomes das pessoas responsáveis
pela nota, que pediram perdão à jornalista de rádio e
lhe solicitaram que não ingresse ação judicial contra
elas.
Em 20 de julho, Andrés Pereira, repórter gráfico do jornal
Vanguardia, de Ciudad del Este, a 330 km a leste de Assunção,
foi agredido por agentes policiais vestidos como civis fotografados quando
golpeavam uma pessoa detida e algemada que se encontrava na carroceria de
uma caminhonete. Os agentes confiscaram a câmara de Pereira e se apropriaram
do rolo de filmes antes de abandonar o local.
Em 4 de agosto, o juiz Antonio Ocampos decretou a liberação
do diretor do jornal Noticias, Eduardo Nicolás Bo Peña, na ação
por calúnia que foi ingressada por Richard Gómez, acusado em
publicações do mencionado jornal de ser um dos autores do assassinato
do vice-presidente Luiz María Argaña, ocorrido em 23 de março
de 1999. Gómez foi liberado pelo juiz Jorge Bogarín ao não
se encontrar indícios que o incriminassem.
O juiz Ocampos eximiu de responsabilidade o diretor do Noticias, já
que este, no documento apresentado ao tribunal da causa, através de
seu advogado, responsabilizou quatro jornalistas do citado meio como autores
da investigação que deu origem ao artigo intitulado "Richard
Gómez, o terceiro pistoleiro no assassinato do vice-presidente Argaña".
Em 14 de agosto, Richard Gómez entrou com recurso contra a sentença
que concede a liberação a Bo Peña.
Em 6 de agosto, o promotor geral do Estado, Oscar Latorre, confirmou um pedido
de 25 anos de prisão solicitado para Milciades Maylín, considerado
o suposto autor material do assassinato do jornalista Salvador Medina, ex-diretor
da rádio comunitária Ñemity, de Capiibary, 350 km a nordeste
de Assunção, em 5 de janeiro de 2001.
Latorre também apoiou a liberação temporária de
outros processados outorgada por um juiz, alegando que a investigação
do caso não reuniu elementos suficientes "para sustentar uma acusação
contra as citadas pessoas".
Os familiares do falecido expressaram seu desagrado com a liberação
dos outros supostos implicados - Timoteo Cáceres, Daniel Enciso e Luis
Alberto Franco - e entraram com um recurso contra a medida.
Em 24 de agosto, o advogado Alcides Martínez apresentou uma ação
criminal contra Rafael Marcial Montiel, correspondente do jornal ABC Color
em San Juan Bautista (Misiones), 250 km ao sul de Assunção;
Celso Rivarola, correspondente do jornal La Nación; Sixta Ferreira
de Gómez, diretora da emissora de rádio Espectador; Roberto
Saccarello e Carlos Llano, da Televisión Sanjuanina, todos da mesma
localidade, como resultado da cobertura de uma manifestação
realizada contra o destituído governador do Departamento de Misiones,
Egidio Ruiz Pérez. A ação foi ingressada por suposto
"ato punível contra a segurança da convivência das
pessoas" e o processo continua nos tribunais.
Em 27 de agosto, o juiz Jorge Bogarín absolveu de culpa e pena o diretor
do jornal Noticias, Eduardo Nicolás Bo Peña, em uma ação
por supostas calúnia, difamação e injúria ingressada
pelo empresário Reinaldo Dominguez Dibb.
A ação judicial baseou-se em uma publicação do
Noticias intitulada "Veículo do Estado a serviço dos amigos",
que se referia à utilização de caminhões do Ministério
de Obras Públicas na fazenda Monte Alto, cuja propriedade atribui a
Domínguez Dibb.
A sentença judicial que absolveu o diretor do Noticias indicou que
o objetivo da publicação foi a defesa do interesse público
e que não houve intenção criminal nem existiu dolo algum.
Um fato considerado sumamente grave para o trabalho jornalístico constituiu
a sentença ditada em 21 de setembro pelo juiz Juan Pablo Cardozo, de
Concepción, 450 km ao norte de Assunção, que condenou
a pagar uma multa um jornalista local que fez eco de um relatório oficial
que mencionava irregularidades administrativas na prefeitura municipal da
localidade.
O prejudicado é o correspondente do jornal ABC Color em Concepción,
Telmo Tomás Ibáñez, que em um comentário assinado
referiu-se a um relatório da Controladoria Geral da República
referente às irregularidades que envolviam o prefeito e vários
vereadores.
Ainda que as opiniões do jornalista estivessem avalizadas pelo relatório
oficial, com muita antecipação especulava-se que seria castigado
com uma sentença desfavorável devido às estreitas relações
existentes entre o juiz e as autoridades municipais questionadas.
A sentença, consistente em uma multa de cerca de 10 milhões
de guaranis (2.500 dólares), foi considerada como uma tentativa de
intimidação para evitar denúncias contra os funcionários
estatais. A medida judicial recebeu um pedido de recurso pelo representante
legal de Ibáñez.
Em 28 de setembro, o juiz Hugo López absolveu de culpa e pena o diretor
do jornal ABC Color, Aldo Zuccolillo, na ação por supostas difamação
e injúria que foi ingressada por uma mulher chamada Marta Carcilicia
Vásquez. Esta manifestou-se aborrecida com o aparecimeto de uma filha
menor sua - trabalhadora de rua - em uma fotografia que ilustrava uma entrevista
com a promotora de menores Sandra Farías sobre o grave problema da
prostituição infantil.
O jornal La Nación e a rádio LA 9.70 AM foram novamente alvo
de ameaças públicas por parte do ex-presidente Juan Carlos Wasmosy.
As ameaças foram feitas após uma série de publicações
do La Nación sobre contas secretas nas Ilhas Cayman, que falam de um
grande incremento da fortuna de Wasmosy durante os cinco anos de seu mandato
presidencial.
Wasmosy perseguiu sistematicamente o La Nación durante sua presidência
e tentou calar as denúnicas sobre corrupção que o jornal
fazia. As pressões chegaram inclusive por meio da proibição
de difundir publicidade estatal no La Nación.
Após a recente série de investigação jornalística
sobre uma conta bancária secreta sua nas Ilhas Cayman, Wasmosy disse,
em entrevistas radiofônicas, que ficará "com o jornal e
a rádio", e
Afirmou que as publicações contra ele são realizadas
somente como "uma vingança de Alejandro", porque ele "apressou
seu pai, o dono do jornal", Osvaldo Domínguez Dibb.
Atualmente, Wasmosy é investigado judicialmente por um promotor no
caso de suas contas secretas, graças às publicações
do La Nación.
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