|

58 ASSEMBLÉIA DA SIP EM
JW Marriott Hotel & Stellaris
Casino Lima
12 - 16 outubro, Peru
|
|
|
URUGUAI
A ameaça à liberdade de imprensa
em que se transformaram os tribunais em muitos países também
está presente no Uruguai e esse é sem dúvida um dos temas
mais preocupantes atualmente. Houve decisões judiciais muito importantes,
tomadas de forma oportuna, e que respaldam e reforçam essa liberdade
básica amparada constitucionalmente, mas ultimamente uma série
de processos e julgamentos explicitam a existência de sérios
riscos. Esses riscos e ameaças, que já são mais do que
potenciais, encontram um terreno muito fértil nas posições
sustentadas pela Promotoria, também já denunciada aqui, e que
se refletem na maioria das decisões dos atuais promotores.
Em um recente processo contra um líder sindical por declarações
feitas contra o presidente da República, o promotor do caso quis processar
criminalmente o redator responsável do meio que publicou as declarações
apesar de o líder sindical ter assumido responsabilidade total por
elas. Mesmo quando o jornalista assumiu responsabilidade pela publicação,
o promotor tentou exigir a identificação do jornalista ou jornalistas
que haviam feito a entrevista. Em nenhum momento considerou legítimo
nem de interesse público que um meio jornalístico entrevistasse
e divulgasse expressões de um líder sindical e de oposição
ao governo. O promotor mudou de um dia para outro sua posição
e a certa altura pediu o arquivamento do processo contra o redator responsável
aplicando o princípio in dubio pro reo (na dúvida a favor do
réu), o que significa que considerava que o jornalista havia cometido
um crime ao divulgar as expressões em questão, mas que não
havia elementos suficientes para pedir a condenação.
Em outro caso, encontra-se pendente uma intimação a um jornalista
por causa de uma entrevista que fez com um militar reformado. Por causa das
declarações deste, organizações de defesa de direitos
humanos processaram-no criminalmente por apologia do crime. O que provocou
a denúncia foi a entrevista publicada, mas o tribunal responde a um
pedido das organizações e quer que o jornalista entregue as
fitas de gravação ou qualquer elemento que contenha as conversas
entre ele e o entrevistado.
O direito de resposta está sendo aplicado no Uruguai de forma abusiva
e indo além do admitido na Convenção Americana de Direitos
Humanos. A SIP considera essa uma das piores formas de censura.
Em um caso, que não resultou em condenação, moveu-se
um processo porque um advogado e líder político pretendia continuar
utilizando os espaços de um meio. Este havia feito uma reportagem sobre
uso de influências e por isso os envolvidos escreveram cartas que foram
publicadas dando sua versão. Em uma delas, o advogado incluía
uma série de dados incorretos e insultos e a publicação
acrescentou os esclarecimentos correspondentes. Diante disso, o advogado recorreu
à justiça porque entendia que tinha direito a continuar escrevendo
no meio.
Um jornal de Montevidéu foi obrigado pela justiça, em duas oportunidades,
a inserir respostas em sua capa e contracapa. Essas decisões foram
tomadas mesmo depois de o jornal publicar por vontade própria as respostas
solicitadas e os esclarecimentos correspondentes e o pedido de desculpas.
Um jornalista foi detido e ficou incomunicado porque negou-se a revelar a
fonte de uma investigação sobre corrupção policial.
Esse caso está sendo investigado pelo Supremo Tribunal de Justiça
a pedido do sindicato dos jornalistas.
Outro jornalista foi denunciado por publicar informações referentes
a empréstimos que um banco do governo concedeu a políticos e
legisladores. O caso está pendente.
Um grupo político moveu processo pelo direito de resposta contra um
jornal e um semanário por terem publicado notícias de interesse
público em um caso e uma coluna de opinião, em outro. Esses
casos ultrapassam os limites do que se pode defender seriamente em termos
desse controvertido direito de resposta.
Mesmo que esses processos não tenham continuidade, esse tipo de indústria
de julgamentos, que tem sido bem recebida pelos tribunais e envolve muitos
argumentos de acusação restritivos à liberdade de imprensa,
representa muito gasto de tempo e uma enorme despesa para os meios que devem
contratar advogados sem terem a chance de exigir indenização
por gastos não previstos para esses julgamentos.
Aos numerosos casos de processos contra a imprensa contendo queixas com indenizações
desproporcionais, acrescentou-se nesse período a denúncia feita
pelo jornal El Herald, da Flórida, membro da Sociedade Interamericana
de Imprensa, pela obstrução do trabalho dos jornalistas movido
pelo juiz dessa cidade, Ricardo Santana.
Em duas ocasiões, nos dias 13 e 14 de agosto, o juiz Santana impediu
a entrada dos jornalistas do El Herald a audiências no tribunal, o que
viola o direito à informação.
O fato foi trazido ao conhecimento dessa vice-presidência regional da
SIP pela direção do El Herald¸ assim como da Organização
da Imprensa do Interior e da Associação de Imprensa Uruguaia
que se dirigiram por escrito ao Supremo Tribunal de Justiça pedindo
sua intervenção.
Contrastando com esse panorama judicial negativo, deve-se observar que a Câmara
de Deputados do Uruguai aprovou recentemente um projeto de lei sobre o direito
à informação e habeas data. O projeto de lei que está
sendo agora examinado no Senado, permitiria que os cidadãos tivessem
acesso a todos os documentos do governo, que coletassem informações
e a difundissem. O presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa
da SIP, Rafael Molina, expressou estar satisfeito com os progressos em matéria
de liberdade de expressão que esse projeto representaria. Espera-se
que no trâmite até sua aprovação, a lei não
sofra modificações que alterem sua busca de transparência
e que sua regulamentação garanta seu cumprimento de forma eficaz.
Representantes de alguns setores políticos da coalizão de esquerda
insistiram durante o período de declarações que mostram
uma inquietante tendência para regular o funcionamento da imprensa uruguaia.
Primeiro foi um documento depois qualificado como "minuta", no qual
se propunha que as pessoas que desejassem exercer o jornalismo deviam obter
o apoio de um partido político. No presente mês de outubro, um
senador do mesmo grupo reiterou o conceito da necessidade de "democratizar
os meios de comunicação". Nesse sentido, essa vice-presidência
garante que não existem restrições que impeçam
a livre expressão de suas idéias a nenhum partido político,
setor social ou filosófico. O acesso à opinião pública,
assim como a capacidade de criar um meio de imprensa escrito, radial ou televisivo
não estão, no Uruguai, restritos por motivos ideológicos,
e de fato funcionam no país sem impedimentos, meios que revelam preferência
política das mais diversas tendências. De modo que tais propostas
são consideradas inquietantes para o futuro da liberdade de imprensa
e informação no Uruguai.
Vários jornalistas foram agredidos durante o exercício de suas
funções entre março e hoje. Nesse sentido, a Associação
da Imprensa Uruguaia (APU) denunciou o caso do jornalista Enrique Filgueira,
agredido por um membro de um grupo musical; o de uma jornalista do jornal
El País, agredida por diretores de institutos públicos de ensino
primário, e o de vários jornalistas agredidos por sindicalistas
que afirmaram estar exercendo funções de proteção
para o embaixador de Cuba, Joaquín Álvarez, quando esse abandonava
o país. Nesse último caso, o líder sindical Juan Castillos
pediu desculpas publicamente.
A APU deu seu apoio a vários jornalistas do interior do país
que denunciaram ter sido despedidos ou ter tido seus programas suspensos por
causa de pressões políticas, e censurou a atitude do Serviço
de Imprensa da Presidência da República ao impedir o acesso de
jornalistas do Canal 1 a uma coletiva.
Durante anos existiu no Uruguai um duplo critério tributário
entre a imprensa editada em Montevidéu e a do resto do país.
Como sinal positivo pode-se interpretar a decisão da administração
atual no sentido de equiparar os impostos com base no menor peso fiscal. Apesar
disso, os encargos tributários continuam sendo um dos maiores impedimentos
para que a liberdade de imprensa chegue ao nível desejado no país.
Outra dificuldade econômica não diretamente relacionada à
crise que assola a região é relativa aos custos de distribuição
extremamente altos em vigor no Uruguai, como já foi informado em outras
assembléias da SIP. Nesse sentido, estão sendo analisadas soluções
conjuntas ou alternativas mais econômicas.
Perguntas
ou Comentários? escreva-nos
© 1999 Sociedade
Interamericana de Imprensa. Todos os direitos reservados.
|
|
|