ESTADOS UNIDOS
A guerra e a ameaça de guerra foram os temas de maior destaque em termos
de liberdade de imprensa nos Estados Unidos desde a reunião da SIP
em março na República Dominicana.
Em janeiro, o Tribunal Internacional Criminal na ex-Iugoslávia intimou
o ex-repórter do Washington Post, Jonathan Randal, a testemunhar sobre
a veracidade de uma entrevista que realizou em 1993 com um ex-líder
servo-bósnio, que está sendo agora julgado por crimes de guerra.
A intimação foi emitida depois que Randal recusou-se a acatar
intimações anteriores. Segundo Randal, o ex vice primeiro-ministro
Radoslav Brdjanin, que está sendo julgado, havia dito que desejava
um "êxodo" pacífico da população não
sérvia. Randal entrou com recurso para anular a intimação
e pediu ao tribunal que decidisse, pela primeira vez, se devia conceder aos
jornalistas um privilégio qualificado de não testemunhar sobre
a forma como obtêm suas notícias, com base no interesse do público
internacional no livre fluxo das informações aos correspondentes
de guerra. A principal promotora do tribunal, Carla Del Ponte, sustentou que,
mesmo que exista um direito limitado de os jornalistas não revelarem
suas fontes, esse não seria aplicável ao caso de Randal porque
as informações desejadas já haviam sido publicadas e
Randal já havia prestado depoimento anteriormente. A sala do tribunal
deu razão à acusação e Randal entrou com um recurso.
Uniram-se a ele em outubro mais de 30 organizações jornalísticas
que apresentaram um amicus curiae no qual argumentavam que qualquer tentativa
de obrigar os correspondentes de guerra a testemunhar faria com que parecessem
agentes do sistema judicial e colocaria, assim, sua vida em risco e limitaria
também sua capacidade de cobrir os conflitos.
O caso imediato que envolve Randal pode em breve entrar em disputa - os promotores
estão agora dizendo que seu testemunho talvez não seja necessário.
Mas ainda não se sabe se o tribunal emitirá uma decisão
sobre a questão do privilégio dos repórteres, mesmo se
a intimação for retirada. Não se espera nenhuma decisão
antes de um mês. Mesmo se o tribunal decidir não emitir uma decisão,
continua a ameaça de que os vários tribunais internacionais
que estão surgindo obriguem os correspondentes de todas as nacionalidades
a testemunharem.
Entretanto, os Estados Unidos mantêm na prisão um assistente
de cinegrafista do canal de televisão Al-Jazeera, de Quatar, há
quase 10 meses na base da Baía de Guantánamo, Cuba, sem que
se tenha feito nenhuma acusação. Sami Al-Haj continua detido
junto com 600 pessoas suspeitas de pertencer à Al-Qaeda desde pouco
depois de sua prisão, em 15 de dezembro, no Afeganistão. A Al-Jazeera
tentou, sem sucesso, através dos canais diplomáticos, obter
sua libertação ou alguma informação sobre o seu
caso. A rede disse que um elemento que complica o caso é o fato de
Al-Haj, sudanês que trabalhava na estação havia apenas
dois meses, ter perdido seu passaporte em 2000 e de este ter podido ser utilizado
por outras pessoas de forma fraudulenta. O governo norte-americano afirma
que os prisioneiros de guerra do Afeganistão têm direitos limitados
e que seu isolamento, interrogatório e detenção são
necessários como parte da guerra contra o terrorismo.
A prisão de Al-Haj foi divulgada somente depois que ele enviou uma
carta a sua esposa. Grupos de direitos humanos e de liberdade de imprensa,
tais como o Comitê para Proteção dos Jornalistas, com
sede nos Estados Unidos, protestaram perante o governo norte-americano dizendo
que sem mais informações ao público é impossível
saber se Al-Haj foi preso de forma justa ou injusta.
O governo norte-americano adotou também uma linha de ação
mais dura ao restringir certas liberdades dentro do seu próprio território
nacional. As organizações jornalísticas apresentaram
pedidos de acesso à informação e estão lutando
nos tribunais para obter mais informações sobre as mais de 200
pessoas detidas como testemunhas essenciais ou suspeitas de crimes relacionados
ao terrorismo. A maioria está detida tecnicamente por violações
às leis de imigração. Todos têm acesso a advogados,
mas o governo negou-se a divulgar publicamente seus nomes, ou os das cerca
de 1.200 pessoas que foram detidas por períodos distintos desde os
ataques terroristas de 11 de setembro do ano passado em Nova York e Washington.
Em setembro, o governo declarou que as audiências nos casos de imigração
de "interesse especial" foram realizadas em sigilo. Os recursos
apresentados tiveram sentenças contraditórias. O Tribunal Federal
de Recursos do sexto circuito, em Cincinnati, decidiu que o governo não
poderia emitir uma decisão geral fechando as portas às audiências
de imigração. Seria necessário pedir sigilo individualmente
para cada caso. Entretanto, o Tribunal Federal de Recursos do Terceiro Circuito,
na Filadélfia, ratificou o sigilo geral. Normalmente, o Supremo Tribunal
intervém em casos como esse, em que dois tribunais de recursos emitem
sentenças contraditórias.
O governo recusou, entretanto, os pedidos de acesso às informações
sobre os nomes das pessoas detidas. Afirma que muitos dos detidos não
desejam que as pessoas saibam que estão sendo interrogados e que, se
divulgasse seus nomes, a Al Qaeda teria um indicio das informações
que o governo está manipulando.
Em maio, o governo autorizou os agentes do FBI designados a casos de terrorismo
a começar a interceptar conversas telefônicas e o tráfico
na Internet, sem a necessidade de uma permissão prévia de um
juiz. Trata-se da mudança mais radical efetuada no regulamento do FBI
desde a década de 70.
O governo justifica todas essas medidas
dizendo que são necessárias para proteger os cidadãos
do terrorismo. Afirma que os direitos civis e individuais continuarão
firmes. Os críticos respondem que o governo está reagindo de
forma exagerada. No caso dos nomes não divulgados, por exemplo, os
críticos afirmam que, a essa altura, Al Qaeda já sabe se alguns
dos seus elementos estão desaparecidos e que já se passou um
tempo suficiente para que o governo obtenha as informações de
que precisa, sem apresentar acusações.
Muitos profissionais da imprensa observam cuidadosamente essa situação
para garantir que a necessidade compreensível de segurança não
ganhe um peso injustificado dentro do equilíbrio que deve existir entre
liberdade e segurança.
Em relação a outro tema, o editor David Carson e o diretor Edward
Powers Jr., do The New Observer, um tablóide mensal e de distribuição
gratuita de Kansas, foram sentenciados em julho por um júri por difamação
criminal por escrever, durante as eleições municipais desse
ano, que vários funcionários de alto nível no Condado
de Wyandotte não viviam no condado, conforme exigia a lei. Entre os
funcionários apontados estavam a prefeita Carol Marinovich, juíza
do tribunal distrital, e seu marido, Ernest Johnson, e o promotor Nick Tomasic.
A condenação prevê a sentença de até um
ano de prisão em Kansas. O editor e diretor do The New Observer pensam
em apelar. As leis sobre difamação criminal foram abolidas na
maioria dos estados.
Em setembro, um painel do tribunal federal de recursos determinou que o uso
de câmaras escondidas pela rede de televisão ABC em uma investigação
sobre erros nos laboratórios médicos não constituía
uma invasão de privacidade segundo as leis do Arizona, local onde as
câmaras foram utilizadas. O tribunal ratificou a não aceitação
de uma ação contra a ABC movida por uma das pessoas que era
tema da investigação. Declarou que a importância pública
da história se sobrepunha a qualquer interesse de privacidade do laboratório
e seus funcionarios. O tribunal declarou que as pessoas jurídicas,
diferentemente dos indivíduos, não podem entrar com queixa por
invasão de privacidade.
Perguntas
ou Comentários? escreva-nos
© 1999 Sociedade
Interamericana de Imprensa. Todos os direitos reservados.