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ARGENTINA
Relatório para a 62a Assembléia Geral
Cidade do México, México.
29 de setembro a 3 de outubro de 2006
Mais de três
anos depois de ter assumido o governo, o presidente Néstor Kirchner mostrou
que ainda não entendeu como funciona a imprensa independente. Opiniões
diferentes e até informações que discordem da visão
oficial terminam geralmente em conflitos. A imprensa sofre com os problemas
provocados por uma cultura política que indica possuir ainda traços
de autoritarismo.
Nesse contexto, a imprensa
faz seu trabalho com restrições. Estas se manifestam algumas vezes
em pressões sutis, interferências nas comunicações,
declarações disparatadas com alvo certo e insinuações
sobre os meios de comunicação em que os jornalistas atacados trabalham.
A distribuição de publicidade oficial é feita de forma
arbitrária.
A senadora Cristina Fernández
de Kirchner, durante sessão em que se discutiu a concessão de
super poderes ao chefe de gabinete, criticou os meios de comunicação,
qualificando-os “como uma oposição não votada”
e perguntou “que eleições ganharam os diretores dos meios
de comunicação? Os jornalistas censuram o governo. É uma
oposição na qual ninguém votou”. O presidente Kirchner
reforçou as críticas dizendo que “alguns jornalistas me
dão pena. Recomendo que sejam autocríticos, que investiguem, que
estudem mais, que deixem de fazer lobby. Mais que liberdade de imprensa, trata-se
de domínio de empresas. Cristina”, disse o presidente “notou
com razão que alguns jornalistas agem corporativamente, que se defendem
entre eles, que nem sequer reconhecem seus erros”.
É paradoxal que o
presidente peça à imprensa que se informe, quando o próprio
governo não faz coletivas nem dá entrevistas e além de
tudo não aprovou a lei de acesso a informações públicas.
Há também dualidade por parte do presidente, já que o que
pretende que exista nos meios privados não é aplicado aos estatais.
Programas antigos foram retirados do ar porque eram contra a visão oficial,
e esse foi o caso do programa matutino “Desayuno”, que era apresentado
por Víctor Hugo Morales no Canal 7, de propriedade do estado.
Em 28 de setembro, o presidente
Néstor Kirchner referiu-se a uma coluna escrita em 1978 no jornal Clarín
atribuindo sua autoria ao colunista do La Nación, Joaquín Morales
Solá. O artigo se referia ao ex-presidente da ditadura militar, Jorge
Rafael Videla, e o descrevia com algumas características pessoais. Kirchner
questionou como o colunista podia ter escrito positivamente sobre Videla antes
e falar mal dele agora. Morales Solá disse que não escreveu a
coluna e que naquela época as matérias não eram assinadas.
O colunista recebeu dois telefonemas à meia-noite ameaçando-o,
e sua família, se continuasse escrevendo contra o presidente.
Nesse mesmo dia, Jorge Fontevecchia,
presidente da Editorial Perfil, recebeu uma ameaça por e-mail dizendo
que sua integridade física e de seus filhos corria risco se ele continuasse
criticando o governo. Crescem de forma assombrosa esses métodos de pressão,
cujo objetivo é diminuir a credibilidade dos profissionais, meios ou
políticos adversários e que apelam para qualquer argumento.
Em 2 de outubro, o autodenominado
“Frente Unidade Popular”, ex-grupo de
“piqueteros” ligados ao presidente, convocou um ato em defesa de
Kirchner em frente ao jornal La Nación.
Na província de Córdoba,
o governador José Manuel De la Sota acusou novamente o La Voz del Interior
de ser oposição ao seu governo, de impedi-lo de governar e de
violar a ética jornalística. O governador disse em agosto que
avalia a possibilidade de fazer uma apresentação à SIP
para acusar o jornal por uma notícia sobre uma denúncia apresentada
por legisladores ligados ao governador da capital de Córdoba, Luís
Juez – adversário de De la Sota –, e sobre a qual não
foi consultado.
O diretor do jornal El Progreso,
Horacio Poggi, da cidade de Mariano Acosta, foi ameaçado de morte se
publicasse informações sobre corrupção municipal.
Em junho, a Academia Nacional
de Jornalismo denunciou a violação dos correios eletrônicos
pessoais de vários profissionais, tais como Bartolomé Mitre, diretor
do La Nación, de Daniel Santoro, jornalista do Clarín, de Luis
Majul da televisão argentina, entre outros. Observou também que
em Santa Cruz o programa de rádio “Séptimo día”,
apresentado pelos jornalistas Héctor Barabino, Héctor López
e Daniel Gatti, foi tirado do ar por diretores da emissora LU12 de Río
Gallegos depois de dez anos consecutivos de existência sob ameaça
de corte de publicidade oficial.
A investigação
sobre espionagem de contas de correio eletrônico de políticos e
jornalistas continua sem definição. Como tantos outros casos por
questões semelhantes, este vai “terminar em pizza” porque
não existem no país penas específicas nem técnicas
adequadas para investigá-los e levá-los a julgamento. Não
existem leis que tipifiquem como crime a violação de e-mails,
e alguns juízes a comparam em suas sentenças a violações
de correspondência por correio comum. Representantes do La Nación
defendem um projeto para criminalizar a violação dos correios
eletrônicos e pediram à Comissão Parlamentar de Assuntos
Trabalhistas que esse tema seja abordado urgentemente.
Em Tucumán, onde
o Poder Executivo adquiriu mais poderes desde a aprovação da nova
Constituição, continuam os conflitos com os meios e instituições,
que ficaram mais sérios quando se suspendeu o programa jornalístico
do Canal 5 de televisão apresentado pelo jornalista Enrique García
Hamilton, diretor do jornal La Gaceta de Tucumán.
O relatório anual
do Freedom House, uma das instituições de defesa da democracia,
direitos humanos e das liberdades em 194 países, informou em abril desse
ano que a Argentina havia passado de 41º lugar, em 2005, para 45º
em 2006 porque continuavam ocorrendo no país as perseguições,
agressões e pressões aos meios de comunicação.
Em maio, o presidente Kirchner
disse que os meios deveriam investigar a existência de uma lista da Secretaria
de Informações do Estado (SIDE) que relacionava 200 jornalistas
que cobraram por seu trabalho durante o governo do presidente De la Rúa.
A Associação
de Entidades Jornalísticas Argentinas (Asociación de Entidades
Periodísticas Argentinas - ADEPA) respondeu que se esses pagamentos existiram
deveriam ser investigados pelo governo porque configuram atos de corrupção
pura e simples.
A Argentina é um
dos poucos países que não possui um recurso jurídico para
obtenção de informações dos diferentes poderes do
Estado. Em novembro passado, o controverso projeto de lei de acesso a informações
públicas que restringia substancialmente o direito e não respeitava
as normas constitucionais e de direito internacional foi arquivado.
O país também
não possui uma legislação clara e específica que
defina os procedimentos e os parâmetros para distribuição
da publicidade oficial para garantir um sistema justo. Editorial Perfil, editora
da revista Noticias e do semanário Perfil, entrou com recurso de amparo
por discriminação, já que os jornais foram excluídos
da lista dos que recebem publicidade oficial. O aparecimento, em agosto passado,
de um recurso novo tal como o Fundo Fiduciário contra a discriminação
do Estado, do semanário Perfil, não implica que a situação
tenha piorado, mas que ainda não foi solucionada.
No que se refere à
ação movida em janeiro de 2003 perante o Supremo Tribunal de Justiça
pelo Diario Río Negro por causa de discriminação na concessão
da publicidade oficial pelo governo de Neuquén depois que o jornal divulgou
as supostas tentativas de suborno de suas autoridades, entre elas o governador,
acaba de ocorrer algo muito preocupante. Em setembro, o procurador-geral, Esteban
Righi, decidiu, considerando “não haver norma que estabeleça
a concessão de publicidade em relação às quais fazer
o julgamento da ação”, e que “o amparo deve ser recusado”.
Sua opinião não está vinculada à decisão
do Supremo Tribunal de Justiça, mas define uma linha de pensamento contrária
à liberdade de expressão.
A Comissão de Comunicações
e Informática da Câmara dos Deputados aprovou que se solicite ao
Poder Executivo emitir um relatório explicando os critérios que
utiliza para a concessão da publicidade oficial.
Aguarda-se um pronunciamento
do Supremo Tribunal de Justiça sobre a ação movida pelo
jornal Río Negro em janeiro de 2003 contra o governo de Neuquén,
também por suposta discriminação na publicidade oficial.
Esse problema é discutido também na Comissão de Comunicações
e Informática da Câmara de Deputados que aprovou um pedido de relatórios
ao Poder Executivo para que explique os critérios que utiliza na distribuição
da publicidade oficial.
Os jornais El Territorio
e La Opinión de Posadas, Misiones, também não recebem publicidade
do governo da província porque se opõem à reforma da constituição
que o governador dessa província, Carlos Rovira, pretende realizar para
conseguir uma reeleição quase indefinida do seu mandato.
Em um relatório divulgado
em junho, a organização não governamental Poder Cidadão
observa que não parece haver nenhum critério objetivo na distribuição
nem no aumento do gasto publicitário do valor estabelecido no orçamento
de 2005.
Há também
restrições às fotografias jornalísticas. O Supremo
Tribunal de Justiça de Río Negro condenou o jornal dessa província
a indenizar um promotor por publicar uma imagem do demandante obtida durante
uma manifestação em julho de 1998. O caso representa um sério
precedente e afeta o exercício da liberdade de imprensa, porque proíbe
a divulgação de fotografias de funcionários públicos
no exercício das suas funções e obtidas em local público.
Outra decisão judicial
abre o debate sobre a liberdade de expressão porque condena o jornalista
Tomás Sanz, editor da revista Humor, a um mês de prisão
em suspenso (sem execução de sentença) por uma informação,
publicada em 1991, sobre a existência de contas no exterior do senador
Eduardo Menem. A notícia mencionava a fonte de informações
da revista Brecha, do Uruguai, e também o desmentido de Menem. O Tribunal
considerou que a Humor deveria ter verificado as informações,
e com essa decisão afastou-se da doutrina do caso Campillary que diz
que o jornalista é isento de responsabilidade quando atribui o conteúdo
de uma informação a uma fonte pertinente, como fez a revista.
Essa decisão já havia prescrito quando o Tribunal se pronunciou
em 1998 e o caso foi denunciado à Comissão Interamericana de Direitos
Humanos. O Tribunal atual validou a condenação alegando que se
anteriormente o Tribunal não havia se pronunciado sobre a prescrição
é porque aceitara que não havia prescrito.
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