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MÉXICO
Reunião de Meio de Ano
Quito, Equador
17 a 20 de março de 2006
A liberdade de expressão
e de imprensa sofreu novas e brutais agressões.
Ataques de grupos ligados ao crime
organizado, especialmente ao narcotráfico, continuam sendo o principal
fator que prejudica a liberdade de informação. Jornalistas e meios
reagem com a auto-censura, evitando fazer a cobertura de algumas regiões,
como a fronteira norte, perto dos Estados Unidos, onde vários grupos
violentos estabeleceram suas bases.
Políticos e governantes, por
vezes subordinados ao poder econômico, lideraram vários ataques
sérios a jornalistas.
Os editores e diretores de publicações
mexicanas fizeram muitos progressos em termos de união dos profissionais,
o que lhes permite definir ações para formar uma frente comum
contra as agressões.
Principais acontecimentos deste período:
Em 6 de fevereiro passado, um grupo
armado invadiu as instalações do jornal El Mañana, na cidade
fronteiriça de Nuevo Laredo, no estado de Tamaulipas, uma das áreas
mais afetadas no país pelo crime organizado.
Ao entrar no escritório, o
grupo disparou suas metralhadoras e lançou uma granada no local, no que
pareceu ser um ato extremo de intimidação, já que não
atacaram diretamente jornalistas nem funcionários do jornal. Vários
tiros atravessaram uma divisória e atingiram as costas do jornalista
Jaime Orozco Tey, causando-lhe lesões que até hoje o impedem de
caminhar.
O El Mañana tem se destacado
pela cobertura da violência que afeta sua comunidade. Em 26 e 27 de janeiro,
o jornal foi o anfitrião de um seminário patrocinado pela SIP
e pelos jornais El Universal, da Cidade do México, e El Imparcial, de
Hermosillo. Este seminário, do qual participaram mais de 150 jornalistas
da zona de fronteira, dos Estados Unidos, e de outros países, abordou
tópicos como a elevação dos padrões técnicos,
materiais e éticos na cobertura de assuntos de alto risco, especialmente
o narcotráfico.
Executivos do El Mañana disseram
que desconheciam o motivo do atentado, mas anunciaram uma nova política
editorial que evitará a publicação de informações
sobre o crime organizado. Com essa medida, o jornal soma-se a dezenas de outros
jornais, revistas e programas de rádio e televisão da zona de
fronteira que foram amordaçados por causa do medo.
Algumas horas depois do ataque, a
SIP condenou o fato em um comunicado no qual pedia que o governo mexicano investigasse
diretamente os ataques. A imprensa mexicana tomou a mais firme e abrangente
atitude das últimas décadas ao reunir mais de 50 jornais e editoras
em uma campanha pública, e coletando assinaturas para apoio do pedido
do anúncio da campanha: “Não à violência, não
ao silêncio”.
O mesmo anúncio informou sobre
o “Projeto Fênix”, criado durante o seminário de Nuevo
Laredo e que reúne jornalistas de vários grupos para aprofundar
as investigações realizadas sobre os colegas assassinados. O resultado
dessas novas investigações será publicado simultaneamente
em dezenas de jornais do país que aceitaram participar do projeto.
Diante dessas reivindicações,
o governo federal assumiu as investigações, mas até agora
não obteve resultados concretos.
Em 9 de março, o jornalista
Jaime Arturo Olvera Bravo foi morto quando caminhava com seu filho em direção
a um terminal rodoviário em La Piedad, estado de Michoacán. Um
desconhecido, que segundo as testemunhas o esperava há uma hora, disparou
contra sua cabeça e fugiu em um carro que o aguardava com o motor ligado.
Olvera Bravo, repórter de temas policiais, havia sido correspondente
do jornal estatal La Voz, e colaborava com várias outras publicações.
As autoridades não apresentaram um relatório concludente sobre
esse caso.
Um dia depois, em 10 de março,
o radialista Ramiro Téllez Contreras faleceu após ser baleado
por um grupo de desconhecidos. Contreras era apresentador de um programa informativo
chamado “Impacto en la Noticia”, da EXA e diretor do centro de comunicação
e controle da polícia local. Era também secretário do Sindicato
de Jornalistas Democráticos. Até agora não se conhece o
móvel do crime nem os mandantes do assassinato.
Em 16 de dezembro, Lydia Cacho Ribeiro,
jornalista e ativista social, colaboradora de várias publicações
e autora do livro Los demonios del edén, foi detida em Cancún,
Quintana Roo. Em seu livro, ela revelava ligações entre vários
empresários e políticos com uma rede de exploração
sexual de menores, e em particular com Jean Surcar Kuri, que havia sido preso
nos Estados Unidos com um pedido de extradição.
A jornalista foi submetida a várias
humilhações no processo movido pelo empresário Kamel Nacif
Borge, que foi mencionado no seu livro. A justiça de Puebla transferiu
o caso para Cancún, onde corre o processo.
Recentemente, registros de gravações
de conversas telefônicas foram divulgados; segundo essas informações,
tudo tinha sido parte de uma conspiração para proteger o suposto
pederasta, com a participação do autor da ação,
Kamel Nacif, e do próprio governador de Puebla, Mario Marín.
Diante das reclamações
da opinião pública e de organizações como a SIP,
o governo mexicano ordenou a criação de uma promotoria especial
para esclarecer os crimes contra jornalistas. O novo promotor especial, David
Vega Vega, tem que correr contra o tempo porque o governo atual terminará
seu mandato em dezembro próximo. Nos primeiros cinco anos do atual governo,
foram registradas 208 agressões a jornalistas, quase 60% a mais que nos
cinco anos anteriores.
David Vega Vega coordenará
as investigações dos casos que passaram para a alçada federal,
entre os quais os de Francisco Ortiz Franco, Guadalupe García Escamilla,
Raúl Gibb Guerrero e Alfredo Jiménez Mota.
Em 10 de março, o governo
do Estado de Chiapas, liderado por Pablo Salazar Mendiguchía, enviou
à Câmara uma proposta que anularia as reformas do Código
Penal referentes à difamação. Esse mesmo governo havia
defendido o fortalecimento das leis de difamação desde fevereiro
de 2004. Em fevereiro passado, entretanto, o jornalista mexicano Ángel
Mario Kshersatto foi preso por um curto período sob acusações
de difamação e foi solto sob fiança. As reformas propostas
incluem cláusulas que respeitem o sigilo profissional dos jornalistas.
Outro conflito sobre o qual a SIP
tem se manifestado através de declarações refere-se ao
jornal Noticias, de Oaxaca, afetado durante sete meses por uma greve trabalhista
que, segundo denúncias dos editores do jornal, foi induzida pelo governo
estadual. Em 11 de março passado, recebeu-se informação
de que um juiz havia ordenado o fim da greve e que os funcionários devolvessem
as instalações do jornal aos seus proprietários.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização
dos Estados Americanos (OEA), em um documento datado de 30 de outubro de 2005,
definiu medidas para proteger o presidente do Grupo Noticias, Ericel Gómez
Nucamendi, e 116 funcionários do jornal Noticias, de Oaxaca, diante da
perseguição do governo estadual. O jornal Noticias enfrenta desde
17 de junho de 2005 uma greve orquestrada pela CROC (Confederação
Revolucionária de Trabalhadores e Camponeses) e pelo governo de Oaxaca
encabeçada pelo governador Ulises Ruiz, apesar de a greve ter sido rejeitada
pelos funcionários do jornal.
Em 21 de outubro de 2005, a jornalista
Concepción Villafuerte, diretora do jornal La Foja, em San Cristóbal
de las Casas, Chiapas, denunciou que membros da Polícia Municipal disseram
ter recebido ordem de assassiná-la. Disse que os policiais revelaram
temer por sua integridade, assim como a de suas famílias.
Em Ciudad Juárez, Chihuahua,
agentes do Escritório de Alfândega e Proteção das
Fronteiras dos Estados Unidos prenderam dois jornalistas do El Diario de El
Paso, Texas, sucursal do El Diario de Juárez que publica uma edição
do jornal em espanhol. Os jornalistas foram detidos na ponte internacional Paso
del Norte-Santa Fe, acusados de tirar fotos sem permissão e de violar
a Lei Patriota criada para proteger os Estados Unidos de ataques terroristas.
Em 2 de janeiro, segunda-feira, registrou-se
o desaparecimento do jornalista Oscar Solís Gurrola, que voltou em 4
de janeiro passado para casa ferido e com duas costelas quebradas. Solís
Gurrola fazia a cobertura da região de La Laguna do jornal El Vespertino¸
de Torreón. O jornalista contou que desconhecidos o abordaram antes que
chegasse em casa e que, depois de cobrirem sua cabeça com uma jaqueta,
o surraram. Seus agressores permitiram que telefonasse para casa. Mais de oito
anos atrás, o editor da revista Adelante, Cuauhtémoc Ornelas Campos,
desapareceu, e seu paradeiro é desconhecido.
Deve-se observar que entre março
de 2004 e início de março de 2006, 11 profissionais da imprensa
foram assassinados no México. Em abril próximo, completará
um ano do desaparecimento de outro jornalista, e tem-se poucas esperanças
de que ele seja encontrado com vida. Em pelo menos seis desses 12 casos há
evidência de que os crimes estejam relacionados ao exercício do
jornalismo. A responsabilidade por esses ataques é atribuída ao
crime organizado, especialmente aos traficantes de drogas.
Quanto aos outros seis casos, as
autoridades argumentaram que os ataques foram motivados por crime comum ou que
podem estar relacionados a outras atividades, inclusive à vida particular
das vítimas, e não a assuntos relativos à liberdade de
expressão.
Entretanto, nem as famílias,
nem as entidades jornalísticas para as quais trabalharam, nem a opinião
pública receberam informações conclusivas que permitam
no momento afastar a hipótese de que os crimes tenham sido provocados
pelo exercício do jornalismo.
Em 8 de fevereiro deste ano, jornalistas,
acadêmicos e legisladores apresentaram à Câmara dos Deputados
20 propostas de reforma federal para despenalizar os crimes de imprensa por
difamação e calúnia no México, obter a transferência
automática para a jurisdição federal dos crimes contra
jornalistas, a elevação do sigilo profissional a direito constitucional,
a instituição do direito de resposta e uma atualização
da Lei de Imprensa.
As comissões legislativas
federais concluíram recentemente o projeto de lei para transformar a
NOTIMEX, agência de notícias do governo, em uma agência estatal
de notícias, segundo informações fornecidas pelo presidente
Fox à SIP durante sua Reunião de Meio de Ano, realizada em Los
Cabos. Não se sabe quando esse projeto será debatido, cujo texto
não foi divulgado e é praticamente um segredo. Tampouco se sabe
quando será discutido e, então, aprovado ou rejeitado.
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