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URUGUAI
Reunião de Meio de Ano
Quito, Equador
17 a 20 de março de 2006
A
liberdade de imprensa manteve-se, em geral, bastante forte neste período,
apesar de uma série de episódios negativos — um deles, muito
grave — terem colocado uma nota de incerteza sobre a vigência deste
direito no país que tem sido exercido pelos meios e pelos jornalistas
em um clima dominado por ataques diretos e “insinuações”
do governo, assim como por desmentidos presidenciais sobre fatos comprovados
e constantes reclamações sobre o trabalho da imprensa.
Um jornalista foi seqüestrado
e torturado por desconhecidos que continuam impunes; três jornalistas
receberam ameaças de morte pelo exercício de sua profissão;
outros três repórteres foram levados aos tribunais de justiça
acusados de cometer delitos de “difamação” e “injúrias”
—que, no Uruguai, continuam sendo penalizados com prisão, segundo
as leis vigentes— por notícias que publicaram ou opiniões
que formularam; dois ministros do gabinete do presidente Tabaré Vázquez
e o diretor de um dos organismos arrecadadores do Estado emitiram ameaças,
lançaram suspeitas e atacaram meios e jornalistas, incomodados porque
não concordam com o discurso oficial; e um programa de rádio foi
tirado do ar por “pressões” recebidas pelos proprietários
da emissora.
O ministro de Educação
e Cultura, Jorge Brovetto, admitiu em fevereiro perante uma comissão
parlamentar que o Uruguai “não faz parte da Telesur”, o empreendimento
de vários países promovido e financiado pelo presidente da Venezuela,
Hugo Chávez, ao responder perguntas de deputados de oposição.
Entretanto, em 10 de março, um pouco antes de o presidente Vásquez
fazer uma visita oficial a Chávez, o Poder Executivo enviou ao parlamento
um projeto de lei para que o Uruguai faça parte da Telesur como acionista
e membro integral.
Além disso, concessões governamentais de licenças para
exploração de serviços de televisão provocaram uma
intensa polêmica recheada de acusações cruzadas de falta
de “transparência” e a publicidade do Estado voltou a ser
motivo de preocupação, tanto para os anunciantes como para a Justiça.
O caso mais grave do período
ocorreu entre a noite de 17 e a madrugada de 18 de outubro, quando o jornalista
Marcelo Borrat foi seqüestrado por três homens encapuzados que, com
revólveres na mão, o torturaram, ameaçaram de morte reiteradamente
e o obrigaram a se jogar no mar. Os criminosos exigiram que Borrat desse fim
a umas gravações que possui, ainda que não tenham especificado
quais. O jornalista, que denunciou o atentado às autoridades policiais
e judiciais, declarou que as gravações que seus seqüestradores
querem ver desaparecer podem ser duas: 1) alguns vídeos que difundiu
para o canal de televisão onde trabalhava, obtidos pelo método
de “câmara oculta”, denunciando uma máfia de “traficantes”
de afiliações em hospitais particulares; 2) algumas gravações
de áudio que provam que o empresário Federico Fasano, proprietário
do jornal La República, a rádio AM Libre e o canal de televisão
para assinantes TV Libre, foi o responsável pela censura de um programa
que o repórter apresentava nesta emissora de rádio. Depois da
censura, Fasano demitiu o jornalista, que também trabalhava para a TV
Libre, local em que havia difundido as notícias contra a máfia
de “traficantes”. O caso continua aberto e sem solução.
Outros dois jornalistas foram ameaçados
de morte no período. Diego Muñoz, um repórter que trabalha
no programa “Deporte Total” de televisão, recebeu uma ameaça
do empresário futebolístico Nelson Gutiérrez e fez uma
queixa à justiça. Já no julgamento, Gutiérrez, diretor
da empresa Tenfield que controla os direitos de televisão e de publicidade
do futebol uruguaio, reconheceu a existência das chamadas telefônicas,
afirmou que tinham sido feitas em um contexto de “bronca” e “raiva”,
porém negou que tenha tido a intenção de colocar em risco
a integridade física de Muñoz. O jornalista aceitou essa declaração
como “um pedido de desculpas” e o juiz arquivou o caso. Jorge Bonica,
diretor do semanário El Bocón e do programa de rádio “Francamente
hablando”, apresentou à justiça uma gravação
do senador Francisco Gallinal (Partido Nacional, de oposição),
que disse a um dos colaboradores do jornalista: “diga a ele para se cuidar
porque vou meter uma bala em sua cabeça”. O juiz do caso, Carlos
García,propõe-se a intimar as partes em breve.
Além disso, os jornalistas
Marcelo Gallardo, do jornal Correo de Punta del Este (140 km a leste de Montevidéu),
e Roberto Tatto e Gonzalo Baztarrica, do programa “Hablando Claro”
da rádio FM Río de Nueva Palmira (273 km a noroeste de Montevidéu),
foram acusados por tribunais diferentes de terem cometido os delitos de “difamação”
e “injúrias” —penalizados com prisão segundo
as leis uruguaias— por terem transcrito declarações de um
terceiro, o primeiro, e por terem feito uma entrevista com o intendente (governador)
do departamento de Colonia, os segundos. Os magistrados do caso absolveram os
três jornalistas por não encontrarem fundamentos para submetê-los
a julgamento.
Durante o período, dois ministros
de Estado começaram a atacar os meios e jornalistas que não se
limitam a transcrever os comunicados oficiais, em um escalada que já
ganhou vários adeptos nos órgãos administrativos. O ministro
do Interior, José Díaz, declarou publicamente que o “poder
da mídia” no Uruguai é “mais forte do que outros poderes
democráticos”. Posteriormente, desprezou o papel da imprensa com
o argumento de que “ninguém escolheu” os meios, ao contrário
dos governantes que passaram pela prova das urnas. O ministro recebeu críticas
de meios e jornalistas independentes e da oposição. O único
que se manifestou em sua defesa foi o jornal partidário do governo La
República. Por seu lado, em dezembro, a ministra de Saúde Pública,
María Julia Muñoz, muito próxima ao presidente Vázquez,
disse saber que há um grupo de jornalistas, que denominou “o eixo
do mal”, que se reúne semanalmente para conspirar contra o governo.
A ministra nunca identificou os supostos conspiradores, mesmo assim disse claramente:
“sabemos da existência dessas reuniões”. As afirmações
da ministra foram questionadas pela imprensa. O deputado Javier García
(Partido Nacional, de oposição) fez algumas perguntas, que nunca
foram respondidas: “Existe um acompanhamento da inteligência sobre
a atividade de alguns jornalistas? Como a autoridade obtém os detalhes?”.
O presidente do Banco de Previsión
Social (BPS) estatal, Ernesto Murro, emitiu veladas ameaças contra jornalistas
que discordam de decisões adotadas durante sua gestão. Murro atribuiu
“intenções” ocultas àqueles da imprensa que
o criticam, porém, enigmaticamente, anunciou que “breve vamos averiguar”.
O semanário Búsqueda observou em um editorial que “na democracia”
não cabe “esse tipo de ameaças do poder contra a imprensa
e contra os jornalistas” e alertou que “lamentavelmente, a esse
respeito vemos que o sistema está mostrando algumas debilidades”.
Em janeiro, o programa de rádio
“Doble Vía”, transmitido pela Radio Centro de Cardona (182
km a noroeste de Montevidéu), foi retirado do ar depois que a proprietária
da emissora alegou aos apresentadores, os jornalistas Dostin Armand Pilón
e Rubén Cabrera, que tinha recebido “pressões” para
adotar essa decisão. Em fevereiro de 2005, a residência de Armand
Pilón foi revistada por policiais por ordem do juiz de paz da área,
Ulises García, com o objetivo de obter uma fita gravada de um programa
em que eram denunciados graves casos de prostituição infantil,
alcoolismo e drogas na cidade próxima de José Enrique Rodó.
A proprietária da rádio comunicou aos jornalistas que o episódio
de invasão e busca da casa do repórter foi um dos “problemas”
que a levou à decisão de retirar o programa de sua emissora.
Na segunda semana de março,
durante uma visita oficial a Caracas, o presidente Vásquez, sentado junto
a Hugo Chávez, pareceu fugir da imprensa, depois de uma pergunta de um
jornalista do jornal uruguaio El Observador sobre a possibilidade de o Uruguai
assinar o Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos. Vásquez
negou surpreendentemente qualquer possibilidade de o país assinar um
acordo desse tipo e, em tom brincalhão, atribuiu as “versões”
a esse respeito a “evasivas” da imprensa, que, segundo ele, inventa
planos que o governo não tem. Não obstante, durante os últimos
meses, foram o próprio Vásquez e pelo menos quatro de seus ministros,
entre eles o de Economia, Danilo Astori, que mencionaram pública e abertamente
a idéia de assinar o tratato.
Como fatos animadores ocorridos nesse
período, deve-se destacar a renúncia definitiva de Oscar Peri
Valdez ao cargo de promotor do tribunal e procurador-geral do país, depois
de dois anos afastado de seu cargo por “abuso de poder” e “violações
aos direitos humanos”, e depois de três anos de ter distribuído
entre todos os promotores uma instrução com doutrinas retrógradas
sobre a liberdade de expressão e liberdade de imprensa. Além disso,
em uma mudança surpreendente, o ministro de Educação e
Cultura, Jorge Brovetto, admitiu perante uma comissão parlamentar em
fevereiro que o Uruguai “não integra a Telesul”, o empreendimento
multiestatal impulsionado e financiado pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez.
Por outro lado, os tribunais de justiça
continuam aplicando jurisprudência avançada para o julgamento de
casos em que a liberdade de expressão está em jogo, depois de
um relativamente breve período de perseguição das atividades
da imprensa e dos jornalistas, que terminou há um ano.
Uma coalizão de ONGs e associações
do Uruguai apresenta um anteprojeto de lei de “acesso à informação,
amparo informativo e ação de habeas data contra o Estado”.
O anteprojeto estabelece que os organismos da administração pública,
nacionais e estaduais, as empresas privadas e as que receberam licença
para “a exploração de um bem ou um serviço público”
e aquelas que “recebam subsídios, fundos ou contribuições
de qualquer tipo” por parte do Estado, “deverão prever a
adequada organização, sistematização e disponibilidade
da informação em seu poder, assegurando um amplo e fácil
acesso aos interessados”. O anteprojeto ainda não começou
a ser considerado pelo Congresso.
A Associação da Imprensa
Uruguaia (APU) solicitou ao Poder Legislativo a anulação dos delitos
de “desacato”, “atentado contra a honra de um chefe de Estado
estrangeiro”, “difamação” e “injúrias”
—todos os quais castigados com penas de prisão—, assim como
o veto às leis sobre o acesso à informação pública.
A associação disse que essas mudanças são “uma
obrigação do Estado para alinhar a legislação interna
com a Convenção Americana de Direitos Humanos que o país
homologou em 1985.
Em novembro o semanário Búsqueda
informou que a juíza penal da nona vara Gabriela Merialdo solicitou à
ministra de Saúde Pública, María Julia Muñoz, que
inicie investigações administrativas nessa Secretaria de Estado
e depois envie os resultados, sobre a distribuição da publicidade
oficial durante governos anteriores. Após quatro meses do pedido, a juíza
ainda não recebeu nenhuma informação do Ministério
de Saúde Pública.
Por outra parte, em dezembro a Associação
Uruguaia de Agências de Publicidade (AUDAP) entregou a ministros e diretores
de empresas públicas uma proposta para que as “convocações
estatais” sejam realizadas com maior transparência e eqüidade
nos processos de contratação de agências para campanhas
oficiais de publicidade.
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