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VENEZUELA
Relatório para a 62a Assembléia Geral
Cidade do México, México.
29 de setembro a 3 de outubro de 2006
A liberdade
de expressão, os meios de comunicação e os jornalistas
enfrentam um quadro legal e situações de fato cada vez mais restritivos
para o exercício do jornalismo, assim como ameaças e agressões
por parte do governo.
Neste período causou
alarme a violência contra os jornalistas, e foram registrados três
assassinatos sem que justiça tenha sido feita até o momento.
A Relatoria Especial para
a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos
Humanos da OEA expressou em 8 de julho de 2006 preocupação pelos
assassinatos dos jornalistas venezuelanos Jorge Aguirre, repórter fotográfico
do jornal El Mundo, e José Joaquín Tovar, diretor do semanário
Ahora, ocorridos em 6 de abril e 17 de junho, respectivamente.
A UNESCO condenou o assassinato
do jornalista Jesús Flores Rojas, do jornal La Región, acontecido
em 25 de agosto passado. Foi assassinado por um assassino contratado na cidade
de El Tigre, no estado de Anzoátegui.
Em 30 de março foi
encontrado o cadáver de Filippo Sindoni, editor do jornal El Aragueño,
que tinha sido seqüestrado no dia anterior, aparentemente por razões
não relacionadas com a sua profissão.
O direito do cidadão
de expressar-se livremente sem ser molestado por causa de suas opiniões,
receber informações e divulgá-las por qualquer meio de
expressão — proclamado no Artigo 19 da Declaração
Universal dos Direitos Humanos e garantido nos artigos 57 e 58 da Constituição
Venezuelana — está sendo sistematicamente violado pelo governo.
A subordinação
dos poderes públicos à vontade do presidente Hugo Chávez
se manifesta em ações cada vez mais flagrantes, em detrimento
da justiça e dos objetivos do Estado democrático. A situação
é caracterizada por emendas, novas leis e regulamentos adequados ao interesse
do plano totalitário e procedimentos e declarações da Procuradoria
Geral da República e do Poder Judiciário.
Um exemplo é o caso
do assassinato, há mais de dois anos, de um Promotor do Ministério
Público, no qual se pretende, com provas que se comprovaram publicamente
como falsas, envolver por autoria intelectual a jornalista Patricia Poleo, hoje
no exílio, e o editor Nelson Mezerhane. Além disso, o Supremo
Tribunal Federal negou o pedido de amparo constitucional interposto pelo editor
do diário Tal Cual contra a censura prévia decretada por um juiz
de controle, por solicitação do Procurador Geral da República
em janeiro de 2006, quando acusou os meios de comunicação de uma
suposta “obstrução de justiça”. Em outra sentença
da Vara Cível se abre a possibilidade de penalidades aos meios de comunicação
ao estabelecer que os jornais devem pagar eventuais danos morais que possam
ser conseqüência das opiniões dos jornalistas.
As ameaças contra
a liberdade de expressão e os meios de comunicação independentes
aumentam porque, a poucas semanas da eleição presidencial, as
notícias refletem a realidade do país:
O Presidente da República
ameaça revogar as concessões às televisões privadas;
o Ministério de Comunicação e Informação
acusa os meios de comunicação de “terrorismo psicológico”
pela cobertura de manifestações; o Ministro da Justiça
culpa os meios de comunicação por relatar sua controvérsia
com o Procurador Geral; o Governo acusa a Sociedade Interamericana de Imprensa
de “desinformar para atentar contra a Venezuela”; o Governador e
o Conselho Legislativo do Estado Bolívar ordenaram a demolição
do edifício de propriedade do jornal Independiente, com 30 anos de tradição
jornalística na região, e o despejo dos jornalistas e trabalhadores.
O governo da Venezuela criou,
com dinheiro público, grande quantidade de publicações,
estações de rádio e televisão que contam com orçamento
ilimitado, grande quantidade de propaganda do governo, exclusividade para a
cobertura informativa de eventos governamentais nos quais não se permite
a presença de jornalistas e mídia independente. Tudo isso com
o fim de estabelecer uniformidade de mensagens e notícias para impor
a ideologia e as opiniões do regime.
Em 29 de março foram
agredidos física e verbalmente os jornalistas Rafael Fuenmayor e Yanitza
León durante um evento com o presidente do Conselho Nacional Eleitoral.
Em 30 de março o
governador do Estado Guárico processou o jornalista Henry Crespo por
difamação.
Em 7 de abril o Ministério
de Comunicação e Informação ameaçou aplicar
a Lei de Responsabilidade Social (Ley Resorte), que controla os meios de radiodifusão,
qualificando como “terrorismo psicológico” a cobertura informativa
dos meios audiovisuais sobre as manifestações pacíficas
contra a insegurança e a criminalidade, ocorridas em Caracas após
o assassinato dos irmãos Faddoul. O órgão governamental
CONATAL ameaçou o canal de televisão Globovisión de suspender
suas transmissões por 72 horas.
Em 11 de abril um juiz do
Estado de Aragua condenou a jornalista Mireya Zurita, diretora do jornal El
Siglo, a 18 meses de prisão por não revelar a fonte de uma informação
em uma ação judicial por “difamação agravada
direta” movida por um chefe de polícia.
Em 28 de abril o Ministro
do Interior e da Justiça culpou a mídia pelas informações
sobre sua controvérsia com o Ministério Público resultante
das ações e contradições na investigação
do assassinato do Padre Jorge Piñango.
Em 3 de maio, Dia Mundial
da Liberdade de Imprensa, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos
da OEA exigiu que o governo cessasse a perseguição judicial a
jornalistas e expressou sua preocupação pelo uso de um registro
de milhões de cidadãos que votaram para revogar o mandato do Presidente
Chávez em um referendo constitucional do ano de 2004. Os nomes estão
contidos na chamada “Lista de Tascón” que se vem aplicando
como ferramenta discriminatória para cargos públicos, contratos
com o governo, solicitações de serviços e para identificar
oponentes, críticos e dissidentes da política oficial.
Em 17 de maio um Juiz de
Primeira Instância determinou o arquivamento da ação judicial
contra o jornalista Napoleón Bravo, baseada na acusação
feita contra ele pelo Ministério Público por suposto “abuso
contra o Supremo Tribunal de Justiça”, mas essa decisão
foi anulada em 14 de julho pelo Tribunal de Recursos e o jornalista irá
a julgamento em um tribunal diferente.
Em 18 de maio o Conselho
Legislativo do Estado Bolívar emitiu uma Decisão mediante a qual
exorta e solicita à Prefeitura do Município Caroní que
ordene “o despejo e o encerramento da atividade comercial realizada pela
empresa Editorial Roderick e proceda à demolição do edifício”
que é propriedade e sede dessa companhia editora, onde há 30 anos
funciona o jornal Correo del Caroní.
Em 21 de maio a SIP manifestou
sua preocupação e qualificou de ridícula a medida que pede
o despejo e demolição da sede do jornal Correo del Caroní.
O governo respondeu no mesmo dia, através de um comunicado do Ministro
de Comunicação e Informação, acusando a SIP de “desinformar
para atentar contra a Venezuela”.
Em 13 de junho o Bloco de
Imprensa Venezuelano se declarou em sessão permanente expressando “o
mais enérgico repúdio ao abuso que está sendo cometido
contra o jornal Correo del Caroní”.
Em 15 de junho o Presidente
Chávez ameaçou revogar as concessões às estações
de televisão privadas em 2007.
O jornalista Hugo Díaz
Milano denunciou em 30 de junho que “o governo quer intervir em associações
de jornalistas não permitindo eleições no Colégio
Nacional de Jornalistas”. Acusou o regime de propiciar uma “assembléia
organizacional” para substituir ilegalmente os líderes das organizações
de jornalistas, como o Sindicato da Imprensa e o Sindicato de Rádio e
Televisão.
Em meados de julho uma missão
da SIP foi enviada a Caracas e Puerto Ordaz a convite de um deputado que participou
da reunião de Quito em março. O ministro de Comunicação
e Informação, em nome do governo, negou-se a receber a delegação
da SIP e igualmente todos os funcionários, legisladores, prefeito e representantes
municipais com quem tinham sido marcadas audiências e reuniões
mediante as quais a SIP buscava “ouvir de viva voz os pontos de vista
oficiais”.
Após várias
reuniões realizadas com editores, jornalistas, associações
profissionais, sindicatos, representantes dos meios de radiodifusão e
uma visita ao jornal Correo del Carona, em Puerto Ordaz, a delegação
concluiu que “há uma deterioração constante da liberdade
de imprensa”.
O Vice-presidente Vicente
Rangel rejeitou em 21 de julho, em nome do governo, o relatório da SIP
dizendo que “tinha sido pré-elaborado”.
Os jornalistas Leopoldo
Castillo, do programa “Aló Ciudadano”, da Globovisión,
e Miguel Angel Rodríguez, do programa “La Entrevista” da
Radio Caracas Televisión, confirmaram a perseguição por
parte de organizações do governo, jornais, canais de televisão
do Estado e outros meios de comunicação controlados pelo governo,
com a intenção de justificar que esses programas de ampla sintonia
e participação de cidadãos sejam eliminados.
Julio Balza, colunista do
jornal El Nuevo País, foi condenado em 26 de julho a 2 anos e 11 meses
de prisão e uma multa de 800 unidades tributárias, por “difamação
agravada contínua” contra o ministro de Habitação.
Executivos e jornalistas
do diário El Caroreño foram agredidos por funcionários
oficiais municipais durante um programa de rádio para comemorar o aniversário
do jornal em 26 de julho. Outros jornalistas do jornal tinham sido atacados
antes.
Na acusação
apresentada pelo Ministério Público contra a jornalista Marianella
Salazar por suposta calúnia ao vice-presidente da República e
ao Governador do Estado Miranda, a audiência preliminar foi realizada
no Tribunal 40 de Controle. O Juiz ordenou que o caso fosse diretamente a julgamento
sem decisão sobre as provas. A defesa da jornalista apelou da decisão
e o caso está agora em outro tribunal aguardando a decisão de
um Tribunal de Recursos. A jornalista também enfrenta uma acusação
de injúria que tramita em um tribunal de Caracas.
Jornalistas do jornal Los
Andes foram agredidos em 28 de julho por agentes da polícia política,
que tentaram tomar seus equipamentos de trabalho.
Líderes sindicais
ligados ao governo do estado de Barinas causaram danos materiais na sede do
Diario de los Llanos em 2 de agosto.
Uma proposta do governo
de Chávez para incluir o tema de controle de conteúdo para os
meios de comunicação na agenda de Direitos Humanos do Mercosul,
foi rejeitada em 30 de julho pela Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. O modelo
proposto era o da questionada Lei de Responsabilidade Social no Rádio
e na Televisão vigente no país, que contempla penalidades que
podem induzir à autocensura.
Em 21 de setembro o Presidente
Chávez agrediu verbalmente a jornalista Luisana Ríos, da Radio
Caracas Televisión, quando esta lhe fez uma pergunta durante uma conferência
de imprensa em Nova York, Estados Unidos.
Em 22 de setembro a Procuradoria
Geral da República citou o diretor do canal informativo Globovisión,
Alberto Federico Ravell, que deve comparecer em 3 de outubro próximo
para uma “investigação” sobre a qual não se
dá informação na ordem de comparecimento. Globovisión,
seus executivos e jornalistas têm sofrido toda classe de ações
de perseguição e agressões nos últimos anos por
seu jornalismo de denúncia.
Em 26 de setembro o editor
Nelson Mezerhane apresentou ao Supremo Tribunal de Justiça o que com
seus assessores jurídicos qualificou de “provas claras de fraude
processual” em relação ao caso do assassinato de um Promotor
do Ministério Público, no qual a Procuradoria Geral da República
o acusou de "autor intelectual" junto com a jornalista Patricia Poleo,
que se encontra exilada por esse motivo.
Em setembro passado, o presidente
do jornal El Impulso, de Barquisimeto, foi notificado de uma ação
criminal contra ele por causa da publicação, no jornal, de uma
denúncia na página “Cartas ao editor”. Na carta, uma
cidadã reclamava que havia sido mal atendida em um órgão
público, parte do Poder Executivo. Trata-se de mais uma agressão
entre as sofridas pelo jornal e por seus jornalistas por causa da sua linha
editorial e informativa independente, e sobre as quais a Sociedade Interamericana
de Imprensa já está informada.
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